A ilha na vanguarda genética

Não lembro se já tive a oportunidade de mencionar aqui determinados fenômenos, no campo da sexualidade e da reprodução, restritos, pelo que se sabe, à ilha de Itaparica. Devo ter dito alguma coisa, mas é tema sempre merecedor de atenção. Por exemplo, uma visita ao Mercado Municipal Santa Luzia, movimentado centro do comércio local, poderá, se bem conduzida, render preciosas informações sobre como certos criadores de galos de briga do Alto das Pombas e da Misericórdia, depois de afincadas tentativas, cruzaram galinhas de briga com urubus, obtendo linhagens excepcionais. Nunca consegui ver um desses híbridos, mas não vou duvidar da palavra de meus conterrâneos.

João Ubaldo Robeiro, O Estado de S.Paulo

19 de dezembro de 2010 | 00h00

Assim como não duvidei, para citar somente mais um exemplo, do finado Sete Ratos, peixeiro muito amigo meu, que me contou ter visto, "não foi uma nem duas vezes", uma enguia popularmente conhecida como caramuru cruzando com uma jararaca, no meio das pedras do raso da vazante. Os dois se enroscavam apertadinhos e ficavam na maior safadeza horas e horas, me garantiu Sete Ratos. Nunca ninguém me falou sobre o nascimento de jararamurus, mas imagino que seriam o fruto natural dessa união.

A ilha sempre foi terra fértil, de varões fecundos e fêmeas ferazes. (A aliteração foi sem querer, de vez em quando me baixa um troço assim, é a criação.) Até as plantas, no ver de muitos, são uma indecência e há quem impeça que sua atividade seja testemunhada por crianças, tamanha a promiscuidade promovida por abelhas, beija-flores, borboletas, morcegos e demais alcoviteiros. Na idade em que as árvores de outros lugares estão mal saindo da condição de arbustos, ainda mocinhas, as da ilha já dão fruta assim que botam quatro ou cinco galhos e diz o povo que é muito difícil uma plantação de mangueiras de variedades puras dar certo na ilha, porque elas caem logo na maior sem-vergonhice e uma mesma mangueira às vezes dá dois ou três tipos diferentes de manga, tal o ponto a que chega a descaração.

Agora, sempre na vanguarda, a ilha está sendo agitada pelas notícias vindas das páginas de ciência das gazetas. Diz aqui, se bem entendemos, que cientistas conseguiram produzir camundongos com a carga genética de dois machos, sem necessidade de material de uma fêmea. Há umas complicações e diversos obstáculos técnicos a vencer, mas o fato é que não está muito longe o dia em que será possível para dois homens ter um filho somente deles dois, sem precisar de um óvulo, ou seja sem precisar de mulher. Da mesma maneira, duas mulheres poderão prescindir de homem para fazer um filho de ambas. Claro que, como observou Zecamunista, o supremo sexo (ele chama as mulheres de "o supremo sexo") é superior até nisso, pois os dois homens podem fazer lá o filho deles, mas vão precisar alugar um útero para abrigar e parir a criança, enquanto as mulheres já vêm equipadas de fábrica. Há de crer-se - acrescenta Zeca, meio pessimista - que chegará o dia em que elas só produzirão machos apenas para o entretenimento de algumas taradas. De qualquer forma, não vai mais colar que duas pessoas do mesmo sexo não podem casar porque a finalidade principal do casamento é a procriação. No futuro todos os casais, de qualquer sexo, poderão procriar e será preciso outro argumento.

E sabe-se que os cientistas que vivem saindo em jornal nunca estão satisfeitos, de maneira que, como decorrência dessas novidades, dizem que demora um pouco, mas se aproxima a largos passos o dia em que a criança poderá não somente ter dois pais ou duas mães, mas três, quatro ou cinco mães, ou três, quatro ou cinco pais, ou ainda quatro pais e duas mães ou três pais e cinco mães, conforme o material genético que se deseje obter, o DNA que se deseje montar. Pode ser uma espécie de trabalho em equipe. Zecamunista, sempre antenado com o progresso e usando sua habitual visão dialética, me fez ver a antítese da síntese. No nosso tempo de criança, xingar outro de "filho de uma mãe com 20 pais" era arriscar-se a uma peixeirada. Doravante, poderá ser um grande elogio.

- Você vai poder elogiar um cara dizendo que ele é filho dos 18 melhores sujeitos da cidade. E que as cinco mães dele são todas lindas.

- E você não acha que isso é meio como criador querendo tirar raça?

- Nada disso, aqui a gente sempre tirou raça e ninguém aqui pode dizer que é raça pura, acho que só Doralice, a galinha legorne de Bertinho Borba, que assim mesmo dá pra qualquer galo da terra que aparecer.

- Mas você é a favor dessas novidades?

- Sou. Na minha opinião, abala os fundamentos da sociedade dominada pela burguesia individualista. O filho passa a ser obra coletiva, é a coletivização da paternidade e da maternidade. Eu vejo nisso até um processo de inclusão. A mulher que não pode ter filho sozinha pode pegar uma caroninha no da amiga. A amiga permite que ela bote uns genezinhos dela lá, não deixa de ser uma realização do sonho de ser mãe. E é uma demonstração de amor ao próximo e de desprendimento, deixar que uma mãe diga a outra que 10% daquele bebê é dela. Mas eu no momento não estou pensando nisso, estou pensando é num projeto que me ocorreu.

- Você está bolando alguma aposta?

- A longo prazo. Eu vou fazer uma vaquinha dos genes dos melhores jogadores de futebol aqui da ilha, os craques mesmo, e vou botar num menino, no mínimo vai dar um super-Obina.

- E você acha que dá certo?

- Com certeza! Já tenho até o nome dele. Vai se chamar Coquetélson. Se revela no Bahia e se consagra no Flamengo.

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