A igreja na figura do velho cardeal

O Grande Inquisidor representa com habilidade o período do Santo Ofício

Mariangela Alves de Lima, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2010 | 00h00

Enxertado em um dos mais estimados romances da literatura ocidental, o capítulo intitulado O Grande Inquisidor, narrativa intercalada de uma segunda visita de Cristo à esfera terrestre, tornou-se uma citação recorrente com os mais controversos propósitos. Serve aos ferozes paladinos do ateísmo, aos místicos ardentes e também aos temperados agnósticos. Se a destacarmos do vasto conjunto do livro Os Irmãos Karamazov, torna-se mais fácil enfatizar o seu caráter apologético e extrair dela uma moralidade.

No entanto, o simples fato de que essa apropriação didática tenha servido a diferentes pregações é uma espécie de prova dos noves da densidade do texto e da provocação e residência que oferece aos embates interpretativos. O teatro do século 20 e mais tarde o cinema compreenderam o cerne dialógico dessa e de outras obras de Fiodor Dostoievski, e suas personagens são periodicamente convocadas para sucessivas reencarnações no palco e na tela, porque o que as torna interessantes não é a conclusão, mas o confronto.

Representado agora por Celso Frateschi, o cardeal que preside ao tribunal do Santo Ofício em seu mais sangrento período conserva a rigidez física do velho nonagenário imaginado por Dostoievski. Sob a direção de Rubens Rusche, hierática e solenemente bipartida entre luz e treva, a velhice do religioso torna-se emblemática da imobilidade e da exaustão do impulso vital do catolicismo romano.

A Igreja que representa se enrijeceu, perdeu a elasticidade das coisas vivas e encastela-se na defesa da autoridade e no exercício do terror para proteger os homens do caos da liberdade - e a encenação preserva essa dimensão engrandecida e escultural do inquisidor-mor. E, é antes de tudo, esse componente de indignação contra o pretenso liberalismo da doutrina cristã que se distingue de modo enfático na interpretação de Frateschi.

Uma vez que se dirige a uma presença em cena a ameaça do monólogo, que supõe um interlocutor presente na plateia, é habilmente evitada. Em grande parte argumentativo, o endereçamento do religioso à plateia incitaria à adesão ou sugeriria a contra-argumentação imediata. Qualquer uma dessas atitudes mentais protege contra a inquietação e um espetáculo que tem ao fundo a lembrança do fogo inquisitorial deve evocar um terror ainda maior e mais antigo do que o dos campos de concentração nazistas.

A polarização do espetáculo em duas áreas de iluminação e o fato de que o cardeal está inteiramente absorto pela figura clara, quase luminosa, que ocupa o lado oposto da cena, elimina a tentação da retórica. A esplêndida refutação das tentações de Cristo no deserto - sem dúvida um feito literário onde ainda ecoam os contrapontos brilhantes da prosa iluminista - é revestida no espetáculo por uma tonalidade reflexiva, mais aparentado ao diálogo interior ou ao devaneio onírico do que à pregação para convencer.

No romance, talvez como uma brincadeira com a onisciência do narrador, procedimento de regra no romance realista do século 19, há uma observação irônica de Ivan Karamazov ao seu irmão e ouvinte sobre o vício do "realismo moderno" que tornou inadmissível o "fantástico". De certo modo, o espetáculo de Rubens Rusche comenta o hábito da verossimilhança, deixando fora de cena as legendas que localizam as indicações geográficas e temporais da narrativa. Como nos contos fantásticos, tudo aconteceu há muito tempo em um lugar exótico e, de qualquer modo, uma história em que a divindade se presentifica inscreve-se irremediavelmente na esfera do maravilhoso. É o autoalegórico medieval que serve como fonte de inspiração ao narrador de Dostoievski e a esta encenação.

Dimensão. Também a lógica do autoritarismo não tem a dimensão das coisas comuns e cotidianas. Embora curvado ao peso dos anos, rouco de indignação e velhice, o inquisidor de Frateschi dispensa-nos da comiseração que poderíamos sentir por um velho que genuinamente sofre e age de acordo com as suas convicções. Na perspectiva da encenação, a tônica recai sobre a presunção de sapiência dos que falam em nome da "natureza humana" como se estivessem eximidos de compartilhar essa dimensão mesquinha. O antagonista divino, envolto nos alvos tecidos da mortalha, tem mais presença física, mais corpo e carne, do que o religioso. Neste, só restam como indícios de vida as mãos iluminadas, destacando-se das vestes negras, e a voz impregnada do tom da revolta. Compreende-se a contradição que aplaina "corrigindo" a obra divina, mas não nos fascina, não sentimos pena. É temível. Só mesmo Cristo para apiedar-se dele.

O GRANDE INQUISIDOR

Teatro Ágora (88 lug.). Rua Rui Barbosa, 672, Bela Vista, tel. 3284-0290. 6ª e sáb., 21h30; dom., 20 h. 55 min.

R$ 30. Até 27/6

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