A hora e a vez de Jorge Takla

Uma mulher que se disfarça de homem para vencer a fome e acaba famosa como travesti; um jovem otimista que segue sua amada mundo afora depois de sofrer perseguições da Inquisição; e um solteiro convicto que resiste à pressão de cinco casais amigos para que se case também. Histórias tão insólitas fervilham na rotina do diretor Jorge Takla, que convive harmoniosamente com todas elas graças a um ponto comum: a música. "São espetáculos em que as canções tratam principalmente da vida", anuncia o diretor, que participa diretamente dos três projetos, respectivamente: a comédia cantada Victor ou Victória, prevista para o próximo ano; a opereta Candide, que estréia no sábado no Teatro Municipal do Rio, e o musical Company, com estréia programada para janeiro.Victor ou Victória é o projeto que consome mais tempo. Com previsão de estréia para agosto do próximo ano, no Teatro Cultura Artística, o musical será estrelado por Denise Fraga. "Há muito que pretendemos trabalhar juntos e não havia chance", explica Takla, que percebe na atriz a representante ideal para a montagem brasileira do papel interpretado no cinema (1982) e na Broadway (1995) por Julie Andrews. "Acredito até que Denise vá trazer mais frescor à personagem", arrisca.O comentário foi formulado depois que o diretor assistiu à montagem em palcos americanos. Apesar de funcionar como entretenimento, a interpretação de Julie Andrews, à época com 60 anos, ficou abaixo da expectativa: a voz, o senso de humor e o corpo treinado estavam lá, mas sem o brilho aguardado. "Ela impôs um ritmo que não valorizou o espetáculo, principalmente a trilha sonora de Henry Mancini, que descobri maravilhosa muito tempo depois, quando recebi as partituras", avalia.Empolgado com o projeto, Takla adquiriu os direitos no fim do ano passado, quando desistiu de montar My Fair Lady, musical que não vingou por falta de um ator que aceitasse o desafio de interpretar o professor Higgins. Contrato assinado, o diretor convocou seus bons companheiros para a empreitada. O músico e versionista Cláudio Botelho responsabilizou-se pela tradução das músicas e diálogos, que deverá concluir até o final do ano. Já o maestro Luiz Gustavo Petri, também maravilhado com a riqueza melódica das notas compostas por Mancini, vai reger uma orquestra ao vivo.Superprodução, o musical deverá ser orçado em R$ 3 milhões e contar com 34 atores e bailarinos. E, enquanto Denise Fraga prepara-se para a empreitada, Takla busca a confirmação de outros atores. Para o papel de Todd, por exemplo, o hilariante homossexual que auxilia Victória na sua transformação em conde Victor, ele convidou Otávio Augusto, que ficou motivado. Já para o gangster de Chicago que se apaixona pelo conde, a intenção é chamar Alexandre Borges.As buscas foram momentaneamente interrompidas por conta da estréia de Candide, neste sábado, a primeira apresentação da obra em português no Brasil. Inspirada no livro de Voltaire, Candide foi escrita por Leonard Bernstein em 1956, por uma sugestão da escritora Lillian Hellman, que pretendia uma crítica à perseguição comunista dos macartistas. "Na verdade, Lillian pediu que ele escrevesse a obra seis anos antes, mas Bernstein ocupou-se com outras peças e, quando se prendeu na adaptação, pretendeu romper a barreira que separava o teatro musical sério do popular", conta Takla, que tem o apoio do ministro da Cultura, Francisco Weffort, entusiasta da obra de Bernstein. "Com isso, ele escreveu uma ópera alegre e dinâmica."A jovialidade da obra encantou o diretor brasileiro, que alterou a concepção do espetáculo ao longo dos ensaios. Inicialmente idealizada para uma apresentação em forma de concerto, em que os cantores se posicionam em frente às partituras, Candide recebeu uma boa dose de dramaturgia.Takla concebeu então uma série de marcações para os cantores, o que trouxe o primeiro impasse - além do desconhecimento das letras (com exceção de Fernando Portari, nenhum dos intérpretes ouvira antes as músicas), a falta de costume em realizar ensaios mais dramáticos foi uma dificuldade inicial. "Não queria ninguém estático porque a própria história já pede um maior jogo de cintura", avaliou Portari, considerado perfeito para o papel de Candide, um sujeito absolutamente otimista que se mente em aventuras durante as inúmeras viagens pelo mundo.Tom sarcástico- Os cantores motivaram-se, no entanto, ao receber partituras em português, traduzidas também por Cláudio Botelho que, para costurar as inúmeras mudanças de espaço (Candide viaja por cinco cidades do mundo), vai atuar como narrador. Sua versão foi a mais fiel possível, mantendo rimas e notas que conservam o tom sarcástico da opereta. O ecletismo da obra de Bernstein é mantido graças ao coral estilo renascentista, que vai acompanhar uma variada seleção musical, desde valsas vienenses e barcarolas até trechos semelhantes à obra de Mahler e uma clara influência do formato dos musicais da Broadway.O ecletismo é completado com os 18 cenários, na verdade, painéis coloridos e românticos ao estilo naïf, elaborados pelo diretor Charles Möeller. "A leveza de seu trabalho permite que o musical, em muitos momentos, chegue a parecer com uma história em quadrinhos", comenta Takla.O afinado trabalho do diretor com Möeller e Botelho permitiu a realização de Company, musical de Stephen Sondheim, que deverá estrear no início do ano, reinaugurando o ex-cine Ricamar, no Rio de Janeiro, agora gerenciado pelo Sesc. "Montar Sondheim é um grande sonho do Cláudio", conta Takla, que também adquiriu os direitos da peça, depois de assistir, em vídeo, à montagem de Londres, assinada por Sam Mendes. O contrato, porém, exige que a estréia aconteça até janeiro. "Como já estava envolvido com Candide, pedi ao Charles que cuidasse da direção."Mais uma vez, Botelho atuou com tradutor, vertendo para o português as elaboradíssimas letras de Sondheim, além de interpretar o personagem principal, Bob. A montagem brasileira, orçada em R$ 300 mil, será integral, com 14 atores e oito músicos. Cláudia Netto, parceira de palco de Botelho em inúmeros musicais, vai interpretar Sarah, que entra em pânico na hora de se casar e canta a bela mas difícil canção Getting Married Today. No papel da aeromoça April, uma das namoradas de Bob, está Chiara Sasso, que mora em Los Angeles e voltará ao Brasil especialmente para a montagem. "Vou acompanhar tudo de perto, mas, oficialmente, serei apenas o responsável pela iluminação", comenta Takla.

Agencia Estado,

27 de setembro de 2000 | 16h45

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