'A Hora e a Vez de Augusto Matraga' reinventa clássico do cinema

'A Hora e a Vez de Augusto Matraga' reinventa clássico do cinema

Bando de "loucos irresponsáveis" ousa refazer o clássico de Roberto Santos, exibido no Festival do Rio

LUIZ CARLOS MERTEN / RIO, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2011 | 03h06

Louco? Irresponsável. O próprio Vinicius Coimbra preferiu se definir assim no debate sobre A Hora e a Vez de Augusto Matraga, que adaptou do conto de João Guimarães Rosa (em Sagarana). Só louco, ou irresponsável, para se lançar à tarefa de refilmar um dos filmes considerados clássicos do cinema brasileiro. Walter Carvalho estava na mesa. O grande diretor de fotografia dispensa apresentações. Estava feliz - na véspera, sexta, recebeu a primeira cópia do documentário (que dirigiu) sobre Raul Seixas. Carvalho, como disse, caiu de paraquedas naquela mesa. Foi substituir o filho, Lula, o fotógrafo de Matraga, que o chamou para fazer a segunda câmera no duelo final entre Nhô Augusto e Joãozinho Bem-Bem.

Walter Carvalho confessou que volta e meia assiste ao Matraga original, a Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, e a Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos, para resgatar sua identidade e saber quem é. São, para ele, as três obras icônicas do Cinema Novo. Com pequenas variações, são as de todo o mundo. O repórter, por exemplo, substituiria Matraga por Os Fuzis, de Ruy Guerra, mas isso não é porque Matraga lhe desagrade. O que disse Carvalho dá a medida do desafio que Vinicius Coimbra assumiu. E ele, ainda por cima, é diretor de novelas na Globo, o que automaticamente coloca boa parte da crítica, senão toda, contra ele. Não sejamos cínicos. O preconceito existe, talvez muitas vezes seja até justificado, mas nem sempre. A Globo Filmes não é parceira (ainda) de Matraga, poderá vir a ser. O filme, distribuído pela Nossa, em princípio está apontado para estrear no fim do primeiro semestre de 2012. Tem muito chão pela frente.

O importante é que ninguém, nem na eventualidade de que venha a ter apoio da Globo, poderá dizer que Matraga não fala a nossa língua, como sempre tem alguém para berrar nas quentes sessões do Odeon, que abriga a Première Brasil. Sempre que, no fim do institucional da empresa, o narrador diz que os filmes da Globo falam a nossa língua, uma ou mais vozes berram 'Mentira!'. Coimbra e a mulher, a roteirista Manuela Dias, de O Transeunte, de Eryk Rocha, fizeram um belo trabalho de pesquisa. No início, ele queria adaptar outro Guimarães Rosa, Campo Geral, narrativa de Manuelzão e Miguilim. Chegaram a trabalhar um tempo relativamente longo antes de descobrir que os direitos haviam sido adquiridos por Flávio Tambellini, para um projeto com Sandra Kogut. Coimbra voltou-se então para Matraga.

A primeira coisa que fez foi assistir ao filme de Roberto Santos. Descobriu não apenas que era transponível para cinema como comportava múltiplas leituras e a dele era diferente. Com a mulher, Coimbra pesquisou situações e a prosódia, os neologismos de Rosa, em outros originais do escritor. Eventualmente, você pode até continuar preferindo o filme antigo - com aquela fotografia em preto e branco e aquela trilha de Geraldo Vandré - "O terreiro lá de casa/não se varre com vassoura/varre com ponta de sabre/bala de metralhadora". O novo Matraga é em cores, com trilha sinfônica - para realçar duplamente a interiorização do relato e trazer para o filme o que o diretor define como "contemporaneidade".

Coimbra ama os atores - é o motivo pelo qual faz novela. Ele conseguiu motivar outros dois loucos. João Miguel, que assumiu o desafio de substituir Leonardo Villar como Nhô Augusto, e José Wilker, que faz Joãozinho (Jofre Soares no filme antigo). Wilker definiu a relação antagônica dos personagem como "de amor". O confronto final tem algo de shakespeariano. Os dois matam e morrem com coragem e grandeza, como se das balas viesse a remissão pelos pecados. É a essência de Augusto - o santo e o guerreiro, Deus e o Diabo no mesmo interior atormentado. Sua fala é emblemática - "Jesus manso e humilde de coração, fazei meu coração semelhante ao seu". A frase de Joãozinho vem de outro original de Rosa. Se o próprio Deus aparecer (para enfrentá-lo), que venha armado. Não propriamente com preocupação, mas Coimbra, que dedicou tantos anos ao filme, pergunta-se se A Hora e a Vez de Augusto Matraga terá espaço no cinema brasileiro atual, polarizado entre blockbusters e filmes miúra. O dele é grande, sem ser blockbuster; autoral, sem ser miúra.

O filme vem se somar a Sudoeste, de Eduardo Nunes, como premiável de fato. Como se comportará o júri? Nos anos 1960, seu presidente, Roberto Farias, chegou a sondar o escritor para comprar os direitos. Terá Farias o 'seu' Matraga no imaginário? Isso vai pesar? O júri, de qualquer maneira, tem competência para julgar - a crítica formulada aqui, no outro dia, referia-se a outra coisa. O tipo de cinema miúra contemplado na Première deste ano - os filmes para europeus verem - não parece exatamente o que atrairia Roberto Farias e seus jurados, alguns, pelo menos. Para encerrar. o próprio Dario Argento foi prestigiar a sessão de Profondo Rosso à meia-noite de sábado, pela miudança de horário, 1 h de domingo, no Odeon. Um filme cult, uma plateia de aficionados. As sessões da meia-noite são sempre uma festa no Festival do Rio.

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