Andrew Macnaughtan/Moviemobz/Divulgação
Andrew Macnaughtan/Moviemobz/Divulgação

A hora do Rush

Nas palavras do guitarrista Alex Lifeson, a banda vem a SP em paz e em alta

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2010 | 00h00

Quase uma religião no rock, está voltando ao Brasil no dia 8 a banda canadense Rush, agora com a Time Machine Tour. Só os Beatles e os Rolling Stones os superam em discos de ouro e platina. Seu fã-clube é multidisciplinar: Genne Simmons (Kiss), Kirk Hammett (Metallica), Trent Reznor (NiN), Billy Corgan (Smashing Pumpkins), Taylor Hawkins (Foo Fighters). Já tocaram para um Morumbi cheio, em 2003. Alex Lifeson (guitarra), Geddy Lee (baixo e voz) e Neil Peart (bateria) devem repetir a dose. O guitarrista Lifeson falou ao Estado.

Há 7 anos, vocês tocaram aqui em São Paulo. Lembra algo?

Sim, claro. Choveu a noite toda, nunca tínhamos tocado debaixo de chuva. Foi duro, mas a plateia foi valente e ajudou a gente a atravessar o temporal.

Você estão fazendo um álbum novo, Clockwork Angels. Como será esse disco?

Já temos umas 6 canções prontas, e duas delas tocaremos nessa turnê. Acho que logo depois do ano-novo voltaremos ao estúdio para finalizar. Terá umas 8 ou 9 canções, e acho que só deverá ser lançado lá pelo Natal do ano que vem.

Essa turnê que vocês estão trazendo ao Brasil é baseada principalmente no disco Moving Pictures, de 1980?

Bom, é um show de três horas de duração. Acho que a maior porção dele é Moving Pictures, de fato, mas é também um bom balanço de toda nossa carreira. Quando fizemos aquele álbum, Moving Pictures, estávamos entrando nos anos 1980, e ele significou uma guinada em nossas vidas. Trazia pressupostos que perduram, como o som econômico, compacto, e acho que é daí que vem a longevidade. Mais que isso, é também porque ele é tão fresco quando o tocamos, ainda hoje, que se impõe. Talvez seja o mais popular dos nossos trabalhos.

No documentário sobre o Rush, você é visto lendo um livro de Christopher Hitchens, God Is Not Great: How Religion Poisons Everything. Fiquei curioso para saber quais suas conclusões.

Os escritos de Hitchens são militantes, com um certo senso de humor. Também há muita raiva em sua caneta. Pessoas que não têm crença em Deus o leem sem grandes problemas, porque não se chocam com suas ideias. Eu não sou religioso, nunca fui. A religião é como se fosse um grande cílio em minha vida. Mas eu prefiro outros livros sobre o tema ao dele, gosto de livros mais acadêmicos.

Uma palavra que sempre acompanha a definição sobre a música do Rush é "complexidade". Você acha que essa é uma preocupação de vocês quando compõem? É mesmo uma busca por algo complicado?

Essa é uma boa questão. Não acho que alguma vez tenhamos pensado em "complexidade" quando estamos tocando ou compondo. O nosso modo de compor ou de tocar parte de um senso de liberdade pleno, e o resultado que nos agrada é aquele que carrega algo dentro, algo autônomo, que cresce enquanto se desenvolve. Mas a busca é, principalmente, por melodias inspiradoras, que despertem o apetite do ouvinte, que o faça querer ouvir mais. Se tocamos de um jeito complexo, é uma extensão das nossas próprias habilidades naturais.

Quando vocês vieram da última vez, ainda havia uma grande preocupação em poupar o Neil (Peart, baterista) do assédio, do cerco, por conta de tragédia familiar (perdeu a filha num acidente de carro e a mulher morreu de câncer 10 meses depois). Qual é o estado de espírito dele hoje?

Bom, já se passaram 13 anos, ele se casou de novo, e tem uma filha de um ano de idade, Olivia. Está refeito, se divertindo muito no palco. Todos nós temos cicatrizes que se mantêm pelo resto de nossas vidas, mas é preciso ir adiante. Ele está mais feliz, completo.

Há um boato de que, depois que vocês lançarem o disco Clockwork Angels, deixarão os palcos. É verdade?

Bom, esse será nosso último disco pela Elektra Records. No estágio atual, já estamos excursionando há dois, três anos. Não consigo falar sobre o futuro. Estamos bem, tocando muito, conversando e buscando equilíbrio no ato de excursionar. Também estamos compondo e gravando. Ou seja: estamos nos divertindo. Não sei quanto ao futuro.

Você já gravou um disco solo. Por que nunca mais fez nenhum projeto sozinho?

Bom, eu gravei um disco em 1995, já tem 15 anos. Foi quando tivemos uma larga pausa, eu tive uma filha naquele período. Foi muito agradável e também trabalhoso, mas não é algo que eu esteja pensando em repetir agora. Continuo fazendo muita coisa, talvez eu tenha material para uns quatro discos.

Como guitarrista, o que acha da cena atual?

Nunca fico muito excitado com essa coisa de guitar heroes. Os guitarristas históricos, como Hendrix, carregavam na guitarra a ideia inteira de uma banda de rock. Mas, para mim, a guitarra tem a ver com a paixão, é o instrumento que me providencia as melodias, as possibilidades melódicas, harmônicas, de tonalidade. Não concordo que Jack White seja uma cópia dos pioneiros. Acho que ele parte de Jimmy Page, da coisa do blues rock, para fazer seu trabalho. É assim que é: quase toda a música se move em ciclos, e ele está em um ciclo. O que acho interessante em Jack é que ele vai mais fundo nos velhos estilos, sua pesquisa é profunda.

RUSH

Estádio do Morumbi. Praça Roberto Gomes Pedrosa, 1, 4003-0696. Dia 8/10, 21h30. R$ 160 a R$ 500.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.