A HORA DE MARAT DESCARTES

Melhor ator de Gramado no ano passado brilha em papel que Rubens Rewald escreveu para ele em Super Nada

O Estado de S.Paulo

17 de março de 2013 | 02h10

Crítica Luiz Carlos Merten

Quando se fala no talento e versatilidade dos atores brasileiros da nova geração, os primeiros nomes que surgem são os de Selton Mello, Wagner Moura, João Miguel, Lázaro Ramos. A eles é preciso agregar Júlio Andrade, melhor ator do ano passado pela APCA, Associação Paulista de Críticos de Arte, por Gonzaga, de Pai pra Filho, de Breno Silveira, e Marat Descartes, melhor ator no Festival de Gramado, também de 2012, por Super Nada. O longa de Rubens Rewald (codireção de Rossana Foglia) estreou na sexta.

É mais que tempo de o paulista Marat, que veio do teatro, obter a consagração que merece. O diretor Rewald, que também é roteirista - e professor de roteiro -, escreveu o papel para ele. O próprio Marat, embora lisonjeado, vacilou um pouco antes de aceitar o personagem. Afinal, ele começava a deslanchar na carreira e 'Guto' lhe trazia de volta justamente as dificuldades do começo, a falta de reconhecimento, o (quase) anonimato numa profissão que vive de exposição.

Nos filmes que realizou - Corpo e o documentário sobre Telê Santana -, Rewald tem revelado particular preferência por um tipo de personagem. Guto quer ser ator, treina para isso, mas ainda não é. Seu contraponto, que cria o pathos do roteiro, é o palhaço interpretado por Jair Rodrigues na TV. Zeca é decadente, está se despedindo do mundo no qual Guto quer entrar. Ao contrário de Marat, o cantor - parceiro de Elis Regina no Fino da Bossa -, não foi a primeira escolha de Rewald, mas, ao optar por ele, o diretor fez uma descoberta. Jair Rodrigues mudou o personagem que ele criara. Tornou-o menos antipático. Deu-lhe humanidade.

Na trama de Super Nada, Guto faz um teste para participar do programa de Zeca. Encontram-se no bar, Zeca bebe até cair e Guto o leva para casa, onde está sua namorada. Zeca é desagradável, o humilha. Quando avança sobre a namorada, Guto o ataca. E pensa que o matou. Para o espectador que se interessa muito em saber o gênero do filme que vai ver, Super Nada coloca um problema. A narrativa muda de tom, atropela as expectativas do público. É uma comédia, mas depressiva, segundo a definição (apropriada) do psicanalista Tales Ab'sader.

Como diretor - e dramaturgo, pois escreve para teatro -, Rewald é atraído pela cidade. A solidão das pessoas, a cacofonia urbana, tudo isso o atrai e se reflete no seu cinema. A coprodução com o México lhe permite explorar diferentes sonoridades, com bandas de lá e de cá. Tudo é pensado, elaborado - um cinema que talvez não seja bem 'popular', mas que o diretor já viu (em Gramado, Tiradentes e nas pré-estreias) que provoca o afeto do público. Super Nada ganha mais fôlego no fim, quando Guto reencontra Zeca. O que o palhaço sopra no ouvido de Guto muda sua percepção da arte e da vida - e a nossa do personagem. Como curiosidade, aproveite para comparar Super Nada com Colegas, que também está em cartaz e ganhou melhor filme em Gramado. Boa vontade à parte, não há comparação. Super Nada é mais complexo (e interessante).

JJJJ ÓTIMO

JJJ BOM

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