A hora de Hermila Guedes

Marcelo Gomes fala de mulheres e oferece um papel sob medida para a atriz

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2012 | 02h12

Parece um filme de Karim Aïnouz. O que poderia ser recebido como ofensa por outro autor não altera nem um pouco o humor de Marcelo Gomes. "A gente trabalha junto, como roteirista e até codiretor. E ainda tem a Hermila (Guedes). São tantas afinidades. Mas só parece dele, viu? O filme é nosso." E Gomes usa o plural, para se referir à parceria com a atriz de O Céu de Sueli. Hermila é a alma de Era Uma Vez Eu, Verônica. Gomes faz outra observação pertinente, quando o repórter reclama. O filme ganhou os principais prêmios de Brasília, mas não o Candango de melhor atriz. "O prêmio para ela já estava implícito no Candango de melhor filme. Hermila fez um trabalho precioso de coautoria."

Marcelo Gomes acaba de completar (em 28 de outubro) 49 anos. Começou no curta, com Maracatu, Maracatus e Clandestina Felicidade, colaborou no roteiro de Madame Satã (de Karim Aïnouz) e, em 2005, há sete anos, fez o filme que pode muito bem ser considerado o melhor do cinema brasileiro desde a chamada Retomada - Cinema, Aspirinas e Urubus. Um filme centrado em personagens masculinos. Depois veio, de novo em parceria com Aïnouz, a codireção de Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, outra voz masculina (a de Irandhy Santos, que nunca aparece, a ponto de poder ser identificado). Dois filmes com e sobre homens e agora uma investigação do feminino.

Gomes não divide seu cinema em gênero - masculino, feminino. Numa entrevista realizada na Sala Cinemateca, durante a Mostra - Verônica seria apresentado dali a pouco a Hermila e eles vieram para a apresentação -, o diretor lembra. "Quando tinha 20 e poucos anos, queria fazer um filme em que pudesse me colocar na tela. Mas era a época do Collor, o cinema brasileiro estava morto, a produção quase não existia. Os anos passaram e eu sempre matutando como sou apaixonado por personagens femininas. Posso citar a Cabíria de As Noites de Cabíria, de Federico Fellini, a Mônica de Mônica e o Desejo, de Ingmar Bergman, a Julieta de Julieta dos Espíritos, também de Fellini, a Blanche DuBois de Um Bonde Chamado Desejo, de Tennessee Williams, que virou filme de (Elia) Kazan, Uma Rua Chamada Pecado."

E ele acrescenta - "A partir desse sonho de desenvolver uma personagem feminina, escrevi um conto sobre Verônica e a vida dela na minha cidade, o Recife. Parti de uma coisa muito básica - Verônica vai à praia e repensa a vida. À medida que escrevia, a relação dela com o mar ficava mais forte e o Recife é uma cidade aberta para o mar. Já não sou jovem como há 15 anos, então aquele desejo de me colocar na tela foi mudando. Comecei a me interrogar sobre as questões que mudaram para os jovens de hoje, pessoas de 25/27 anos, já na fase de maturação. Foi um filme pesquisado. Fiz entrevistas com 20 mulheres de diferentes classes. Descobri o que já intuía - a sociedade está mais competitiva e individualista. Os jovens estão mais livres para definir o que fazer com a carreira, os sentimentos, o sexo. Os pais não reprimem tanto, mas eu queria que Verônica tivesse uma relação forte com o pai."

O filme, ou a personagem, estrutura-se sobre esse tripé - Verônica terminou a faculdade e tem de se firmar na profissão que escolheu, e desde o início Marcelo Gomes queria que ela fosse psiquiatra; tem de encarar o amadurecimento, porque o pai não só está envelhecendo como está doente; e, no limite, a Verônica precisa decidir o quer dos homens, se é só sexo ou uma relação mais estável. O filme saiu na medida da protagonista. Não conta propriamente uma história. Investiga o mundo interior. Ousa - as cenas de sexo, na praia, não poderiam ser mais hedonistas. Gomes acerta o tom, mas ele tem razão. Sua atriz, Hermila Guedes, é a alma do filme e a entrada do diretor no território de Karim Aïnouz - a investigação de feminino - revela-se enriquecedora.

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