Jairo Goldflus/Divulgação
Jairo Goldflus/Divulgação

A hora de Evita

O letrista inglês Tim Rice fala sobre sua obra, um dos musicais de maior sucesso no mundo e que estreia em São Paulo, com direção de Jorge Takla

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2011 | 00h00

O libretista inglês Tim Rice vivia um momento singular em 1972 - os elogios que ganhara pelo musical Jesus Cristo Superstar, que estreara dois anos antes e com o qual provocou a Igreja ao denunciar os cultos messiânicos, já diminuíam e ele buscava outro projeto para desenvolver ao lado de Andrew Lloyd Webber. "Nada me interessava até que, certo dia, dentro do carro, escutei o final de um programa no rádio sobre Eva Perón. Imediatamente percebi ali a fonte para um musical", disse ele em entrevista exclusiva ao Estado.

As pesquisas da dupla revelaram uma mulher fascinante: Evita foi uma pobre estrela sem talento que, ao se casar com o político argentino Juan Domingo Perón, descobriu que a personagem de sua vida era ela própria. A partir desse material, Rice e Webber criaram Evita, musical que logo se tornou um marco ao estrear em 1976.

Vivido por Madonna no cinema, o papel será representado agora por Paula Capovilla, na montagem que estreia dia 19, no Teatro Alfa, com direção de Jorge Takla. Ao seu lado, Daniel Boaventura interpreta Juan Perón e Fred Silveira vive Che Guevara. Apesar de não carregar no tom político, Tim Rice criou letras ácidas para Evita - especialmente na cena em que ela dança uma valsa com Guevara. Enquanto o guerrilheiro critica a traição cometida por ela contra os trabalhadores (afinal, vivia alheia às torturas promovidas pelo governo de seu marido), Evita responde que é inevitável conviver com o mal, justificando ainda o luxo em que vivia como uma forma de alegrar os descamisados. "Eram dois lados de uma mesma moeda", disse Rice, na seguinte entrevista.

Foi em um carro que o senhor descobriu Evita Perón?

Sim, foi incrível. Escutei os dez minutos finais de um programa de rádio. Mais tarde, quando ouvi tudo, percebi ter um excelente material para um musical. Consultei Andrew (Lloyd Webber), que também ficou entusiasmado e assim nasceu o musical.

Apesar de tratar de personagens com fortes características políticas, Evita não se aprofunda nessa área, não?

De forma alguma, exceto, talvez na cena da dança entre Evita e Guevara. Claro que ela, por não ter uma posição definida sobre a classe dos trabalhadores que dizia defender, carrega uma forte conotação política. Mas preferi ressaltar a figura de uma mulher que nasceu pobre e, graças ao seu desejo infinito de poder, tornou-se muito amada. E, depois de morrer de câncer, um mito.

As canções tornaram-se referências, mas talvez nenhuma alcançou tanto sucesso como Don"t Cry for Me Argentina. O senhor teria alguma explicação?

Desculpe-me, mas não tenho nenhuma. Quando a criamos, era uma canção como as outras que formam o espetáculo - não há nada que a torne diferente. O que talvez possa explicar seu sucesso é a carga dramática da letra e da música, pois pretendíamos mostrar os pensamentos de Evita em seus dias finais de vida.

E o que dizer do filme que Alan Parker dirigiu em 1996, com Madonna e Antonio Banderas?

Gosto muito do resultado final, especialmente da ousadia de Parker em realizar um filme inteiramente cantado. Aliás, para essa produção, criamos uma nova canção, You Must Love Me, que acabou ganhando um Oscar. É uma música que gosto muito, e foi incorporada ao musical. Espero que tenha também na versão brasileira.

O senhor e também Lloyd Webber tiveram alguma participação no filme?

Não, nenhuma. O que não é novidade pois diretores não gostam de palpiteiros por perto (risos). Na verdade, nem os comentários que fiz sobre uma ou duas alterações na melodia foram levados em consideração (risos). Eram meros detalhes, provavelmente ninguém notou, mas gostaria de ter mudado.

Musicais sempre foram produções caras. O que se pode esperar para os próximos anos, especialmente agora, quando uma versão do Homem Aranha coleciona muitos problemas?

De fato, é um trabalho custoso e que envolve muita gente. Realmente não sei dizer qual será o caminho trilhado, mas vejo Homem Aranha e seus problemas como exceção e não nova regra. Na verdade, a base de um sucesso sempre será a mesma, ou seja, a combinação de belas letras e melodias aliadas a uma boa história. Não tem como errar.

O senhor planejava fazer um musical sobre Maquiavel.

Sim, continuo trabalhando nesse projeto, mas, no momento, estou mais animado com uma versão musical do filme A Um Passo da Eternidade. Maquiavel fica para depois.

QUEM É

TIM RICE

LETRISTA DE MUSICAIS

Nascido na Inglaterra em 1944, ele estreou em 1967 com José e Seu Manto Tecnicolor, início da parceria com Andrew Lloyd Webber, com quem também criou Jesus Cristo Superstar (1970) e Evita (1976), entre outros. Com Elton John, criou O Rei Leão (1997) e Aída (2000).

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