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A hora de Cazarré

Após novela, ator consolida carreira com 'Serra Pelada', em papel que seria de Wagner Moura

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2013 | 02h19

Juliano Cazarré não tem papas na língua. Sobre a novela das 9, em que interpreta o hippie Ninho, diz que a fofa Perséfone, que já tentou de tudo para perder a virgindade na trama de Walcyr Carrasco, está dando mole ao não cruzar seu caminho no enredo. "Eu mandava ver", diz. E tem cara de quem mandava mesmo. Juliano Cazarré vive um momento glorioso de sua vida e carreira. O sucesso chegou para o jovem brasiliense que, além da novela Amor à Vida, ganha as telas do Brasil a partir da próxima sexta, dia 18, como protagonista de Serra Pelada, o longa de Heitor Dhalia sobre o mítico garimpo do Pará que virou o Eldorado para brasileiros que acorriam de todo o Pais, em busca do ouro.

"Quando o papel tem de ser, cara, é." Juliano forma a dupla de protagonistas com Júlio Andrade, mas a história é contada do ponto de vista dele. Não seria assim. Juliano estava escalado para fazer um papel pequeno, o homem morto por Lindo Rico - guarde esse nome. Juliano seria Wagner Moura, que acompanhou o diretor Dhalia durante todo o processo de construção dos personagens, Juliano e Joaquim. Mas os atrasos na condução de um projeto tão grande trombaram com a proposta hollywoodiana para que Wagner fizesse Elysium. Ele foi, e Juliano ganhou seu papel. "Não mudaram nem o nome, era o Juliano fazendo o Juliano."

Ele lembra o primeiro ensaio com Júlio Andrade, em São Paulo. "Já havia um roteiro, mas ficamos fazendo uns jogos. Foi uma coisa que pintou na hora. Eu pegava ele e jogava nas costas, como se fosse um saco. Ele fazia a mesma coisa, e a gente subia uma escada que tinha na produtora. Foi um coisa muito física, muito intensa", conta. "Nunca fiz nada parecido com o Juliano, que tem uma energia brutal e uma força muito grande. O cara direciona tudo isso para a sede de poder. Aquilo (o garimpo) era terra sem lei. Mandava quem podia. O Joaquim (Júlio) vive repetindo que Serra Pelada fazia aflorar o pior das pessoas, e é verdade, mas, para ser o Juliano da ficção, nunca fiz nenhum juízo de valor de suas ações. No final, apesar de todos os conflitos, a amizade triunfa. Acho bonito isso."

Carregar saco nas costas, subir pelas encostas do grande buraco - uma pirâmide invertida - que virou o garimpo, tudo isso fez parte da rotina de Juliano Cazarré durante semanas. Mas teve as cenas de sexo no banheiro do puteiro, para onde ele é arrastado pela personagem de Sophie Charlotte. A garota é um assombro. Veio de Malhação, faz uma heroína ambivalente - meio mocinha, meio vilã, na trama das 6, Sangue Bom -, mas nada prepara o telespectador que acha que conhece Sophie para a cena do banheiro. Ela vira um mulherão selvagem. A cena é ousada. Sophie perguntava - "Estou sentindo isso, é normal?", Juliano conta. "Fizemos sem joguinhos, com olho no olho. Mas vou dizer - prefiro mil vezes a porrada. As cenas de sexo sempre carregam um constrangimento. A gente fica nervoso, não adianta negar. É muito melhor de ver do que de fazer, pode crer."

Embora seja um ator brasiliense, Juliano Cazarré na verdade nasceu no Rio Grande do Sul, em Pelotas, cidade que carrega o estigma de não ser um reduto de machos. Existem quase tantas piadas sobre isso quanto de portugueses burros. Puro preconceito, é verdade, mas o que importa é que Juliano, pouco após o nascimento, foi para Brasília. O pai, Lourenço Cazarré, é escritor famoso e ganhou o Jabuti por Nadando contra a Morte, em 1998. Juliano conta que deve ao pai o empurrão para virar ator. "Ele nega isso, mas eu estava naquela fase em que o jovem não sabe o que quer da vida. Nunca havia sonhado em ser ator, mas houve uma representação, uma atividade do curso, e eu tive de dançar e representar. Gostei daquilo e comentei com meu pai. Ele foi direto - 'Então por que não faz artes cênicas?' Tudo começou desse jeito." Em 2007, ele se transferiu para São Paulo. Fez a série Alice, na HBO. No mesmo ano, fez Nome Próprio, de Murilo Salles.

Foi uma fase difícil. "Minha mulher e meu filho viviam em Brasília. Eu filmava e aproveitava as folgas para visitar os dois, brincava com o moleque e voltava correndo." Em 2011, fez a primeira novela, Insensato Coração. Depois, veio o Adauto de Avenida Brasil. O público se amarrou no estilo bronco/humorístico do personagem. A partir daí, tudo mudou. Consolidado na Globo, Juliano chamou a família e dispensou a ponte aérea. É um cara bem família. Adora esportes. Sempre nadou. "Já nadei mais, mas sempre de forma amadora. É um esporte que curto muito."

Embora negue, faz o gênero intelectual. Foi de óculos ao tapete vermelho de Serra Pelada no Festival do Rio. "Que intelectual, cara? Olha pra mim. Nem meu pai faz esse gênero." Mas o brucutu que luta pelo poder em Serra Pelada é um homem sensível e, no ano passado, Juliano lançou um livro de poemas - Pelas Janelas.

A filmografia já é extensa, 16 filmes desde 2002. Mas deve estourar a partir de Serra Pelada. Ele só tem elogios para Júlio Andrade e para Wagner Moura. "Veja o Wagner, velho. O papel é pequeno, e ele engole a gente. Tenho o maior respeito por esses caras, o Júlio, o Wagner. Aprendo com eles." Aprendeu muito com o diretor Heitor Dhalia. "O esforço dele para fazer um filme desse tamanho foi inspirador. Uma coisa grandiosa." E o futuro? "Estamos aí. Não posso dizer como será porque, nessa profissão, a gente é muito escolhido. As coisas têm dado certo para mim e eu espero que deem mais ainda."

Por exemplo, o Ninho - "Acho que o fato de ele ter obtido sucesso fazendo o que gosta, fazendo a arte dele, mudou a cara e a personalidade do Ninho. O dinheiro trouxe mais calma, uma atitude mais madura, mas não sei se ele ficou bonzinho ou mais vilão ainda. A novela Amor à Vida ainda tem chão pela frente para descobrir. É diferente do cinema. Na novela, a gente avança no escuro, a trama pode mudar. O filme já tem uma curva dramática. São maneiras diversas de abordar os personagens, e eu estou adorando."

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