A hora dayyy phone-free zone

Louis C.K., Hannibal Buress, Alicia Keys, Guns N’ Roses, Maxwell, Donald Glover (Childish Gambino) também bloquearam os celulares em seus shows

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S. Paulo

27 de julho de 2019 | 02h00

A onda agora é proibir celulares em shows, exposições, até em restaurantes. A saída é simples: cases com travas. A empresa Yondr patenteou uma carteira de lona, em que se coloca o celular dentro, e ela é lacrada. 

O aparelho inoperante continua com o dono. Ao ir embora, basta liberá-lo na base que destrava. Engenhosa saída para a sociopatia dos tempos atuais: levantar celulares para gravar eventos. 

A Apple acaba de patentear uma tecnologia de infravermelho que pode desabilitar do palco por um tempo as câmeras dos telefones da plateia. Evita-se a pirataria e também a chatice de termos que desviar de cabeças e braços erguidos com câmeras.

Beyonce tem pedido com educação: “Poderiam abaixar as câmeras para curtir um pouco do show?”. Adele faz o mesmo sem a mesma paciência: “A mocinha poderia parar de me filmar com sua câmera? Eu estou aqui na vida real, você pode curti-la”.

A banda The Lumineers fez shows bloqueando os celulares com os cases da Yondr. Não queria o vazamento das músicas inéditas. Estabeleceu-se a “phone-free zone” (espaço sem telefones).

Louis C.K., Hannibal Buress, Alicia Keys, Guns N’ Roses, Maxwell, Donald Glover (Childish Gambino) também contrataram a Yondr e bloquearam os celulares em seus shows. 

Empresa fundada por um moleque nos seus 20 anos, Graham Dugoni, formado em ciência política, a Yondr cria espaços “phone-free” para artistas, educadores, organizações e indivíduos. Anuncia: “Em nosso mundo hiperconectado, fornecemos um refúgio para nos envolver com o que você está fazendo e com quem”. 

Ela tem alugado seus equipamentos para escolas, restaurantes, casamentos e até empresas. E cita Kierkegaard na apresentação: “The highest and most beautiful things in life are not to be heard about, nor read about, nor seen but, if one will, are to be lived”. (As coisas da vida mais intensas e belas não são para serem ouvidas, lidas, vistas, mas para serem vividas, se assim quisermos.)

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Saí do Instagram. Não sabia operar, me confundiam os muitos comandos. Fiz tudo errado. Abri para qualquer um, o que me deu milhares de seguidores desconhecidos para quem oferecia sem mais parte da minha intimidade. Eu queria apenas me comunicar e stalkear amigos e amigos de amigos.

Stories até hoje não sei para que servem. Todo artista divulga divagações sobre seu caos pessoal e almeja ser imortalizado. Qual o sentido de uma ferramenta que dura 24 horas e se autodestrói como uma mensagem do Chefe a Maxwel Smart, o Agente 86, que combatia a KAOS. 

Apesar de ser informado que é a rede social que mais cresce e influencia, não via sentido num aplicativo em que você passa o dedo e curte as fotos de outros. E não me arrependo de ter saído.

As redes sociais nasceram para reaproximar pessoas, facilitar a troca de arquivos, democratizar a informação. Passou a combater o totalitarismo, as injustiças, denunciar desastres ambientais, violência contra animais, abusos. Foi fundamental o papel delas na Primavera Árabe e eleição de Obama. 

Hoje, elas ampliam a solidão, são responsáveis por um alto índice de depressão e, pior, roubam dados dos usuários para as grandes corporações. Sem contar a difusão do discurso de ódio. Sair do Instagram e hibernar o Face me deram um certo alívio, já que limito o acesso à minha privacidade. 

Às vezes, eu postava uma foto qualquer, quando me lembrava de que o Insta precisa ser alimentado. Estava no mecânico. “Ah, tenho Insta”. Postava uma foto minha com o capô do carro aberto e o radiador estourado. Nunca postei em hospital, velório. Nem de comida. Postava fotos dos filhos, mais divertidas do que minha vida de pai correndo atrás de filhos. 

Entrei influenciado pela mulher, uma adepta que virou ex-mulher por culpa do Insta. Claro. Depois de duas gravidezes e partos exaustivos, tensos, com final feliz, viver enfim a experiência de ser o que somos, mamíferos, com noites sem dormir, choros, ao lado de duas linhas de montagem 24 horas por dia de cocôs e vômitos que não param de jorrar, sem contar as noites em claro, enquanto via fotos com filtros das amigas sem filhos na Croácia, magras, exultantes, queimadas pelo sol do verão báltico, deliciando-se com drinques de nomes impronunciáveis e acentos incomuns, levava a se considerar a mais desgraçada das criaturas. 

Todas as pessoas do seu universo eram mais felizes do que ela. Não conheço uma mãe que posta fotos com uma fralda na mão, do filho todo cagado, ou stories com o mais velho chorando, dizendo “eu te odeio”. 

Saí do Insta para romper com a falsa felicidade e viver a vida real sem comparações e inveja. Porque rede social não é apenas para socializar, mas causar inveja. 

No mais, em final de casamentos, dividem-se quadros, Neruda, amigos e redes sociais. Insta é seu, Twitter é meu. Pode ficar com o Face. LinkedIn preciso, por conta do trabalho. Vai pro Tinder, fico no Happn. 

Um fica responsável pela rede social do grupo da escola do mais novo, o outro, do mais velho. Grupo da família? Da minha família?! Você conhece a minha família, são malucos, estão doidos para falar mal de você.

A epidemia do selfie virou histeria. Na exposição da Tarsila (no Masp), tornou-se problema de logística: a fila não andava. As pessoas tiravam fotos das obras, do texto explicativo, e selfies diante delas. Não sei se reparavam no original espectro de cores e formas únicas.

Eu dizia: “Anda, gente, tem tudo isso no site da exposição”. Não. Precisavam do registro de estarem ali, na Tarsila. Para causar inveja e admiração. Que carência...

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