A hora da estreia

John Neschling faz no sábado o primeiro concerto à frente da Sinfônica Municipal

JOÃO LUIZ SAMPAIO, O Estado de S.Paulo

21 Fevereiro 2013 | 02h09

O maestro John Neschling anunciou na tarde de terça-feira a temporada completa do Teatro Municipal de São Paulo, a sua primeira como diretor artístico. Serão 26 concertos e 7 óperas - e a sua estreia à frente da Sinfônica Municipal será no sábado. Durante encontro com a imprensa, o maestro anunciou também a contratação de Iracity Cardoso, ex-São Paulo Companhia de Dança, como nova diretora do Balé da Cidade, e do maestro Bruno Faccio como titular do Coral Paulistano. No mesmo encontro, o secretário Juca Ferreira falou do papel que o Municipal terá na revitalização do centro da cidade e da busca por uma parceria com o Ministério da Cultura para que o teatro seja uma das primeiras instituições do País a se preparar para aceitar o Vale Cultura, que poderá ser utilizado inclusive para a compra de assinaturas, que terá início em maio.

Neschling rege um programa dedicado a três importantes efemérides deste ano: o bicentenário de Richard Wagner (Prelúdio e Morte de Tristão e Isolda) e Giuseppe Verdi (Quatro Peças Sacras) e os 20 anos de morte de Camargo Guarnieri (Sinfonia n.º 2). Após os primeiros ensaios, o maestro se disse muito satisfeito com a qualidade da orquestra e dos corais Lírico e Paulistano. Mas insistiu, no que foi secundado pelo diretor-geral da fundação, José Luiz Herencia, na necessidade de uma nova relação trabalhista que dê dignidade aos músicos. "Nos últimos tempos, houve coisas interessantes e outras muito ruins no teatro. Por conta disso, a classe musical não tinha por ele o respeito que deveria ter, falava-se que os músicos não trabalhavam, eram preguiçosos. Isso é balela. Encontrei um teatro cheio de talentos, estou espantado com a qualidade dos corpos artísticos. O que eles precisam é de respeito e dignidade no dia a dia do trabalho."

Neschling foi um pouco mais contundente nas críticas feitas às gestões anteriores. "Há tudo a ser feito aqui, no teatro", disse, se referindo tanto à necessidade de reforma dos bastidores como ao estabelecimento de um esquema profissional e integrado de produção. "É uma vergonha que o Brasil não tenha um só grande teatro de ópera, é um absurdo que São Paulo não tenha um grande teatro de ópera. É possível fazer isso. E é nesse sentido que nós vamos trabalhar. Nós temos quatro anos para transformar este teatro para valer." Na mesma linha, Herencia falou da necessidade de profissionalização. "A excelência artística será o compromisso indiscutível desta gestão. Mas não se trata apenas disso. É preciso estendê-la também para a questão administrativa, de uma maneira mais integrada, de forma a dar cara e forma à instituição. Excelência começa no estado do vaso sanitário."

Para o secretário Juca Ferreira, o Teatro Municipal é "a joia da coroa" do processo de revitalização do centro. "Não é por acaso que a nomeação de Neschling e Herencia foi minha primeira ação como secretário. É nosso objetivo fazer do Municipal uma referência ainda maior. Encontramos uma reforma física e institucional parcial e vamos dar continuidade a esse processo. É assim que você reverte uma tendência histórica dos grandes centros brasileiros, que deixaram de ter vida qualificada no centro."

Para Ferreira, o Municipal precisa ser um teatro de "toda a cidade". "A população inteira de São Paulo precisa se sentir convidada a frequentar o teatro", disse. Questionado sobre a oferta de espetáculos na periferia, disse que "não se trata de levar os corpos artísticos para toda a cidade, mas, sim, de trazer os habitantes para cá". "O aumento da vida cultural na periferia, subestimada na gestão anterior, passa pela recuperação desse aspecto dos Ceus, que, claro, se destinam à educação, mas também precisam ser compreendidos como esquipamentos culturais." A certa altura do encontro com a imprensa, uma repórter perguntou ao secretário como convencer uma população que só quer ouvir funk a assistir a uma ópera. "Eu não concordo que a população só quer ouvir funk. Mas a questão não é essa. O papel do Estado é oferecer espaço tanto para o funk como para a ópera. Estamos falando de garantir acesso e opções", disse, ressaltando que os ingressos para a série de concertos do Municipal custarão de R$ 10 a R$ 60. "É mais barato que ir ao cinema", emendou Neschling.

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