A hora, a vez e o berro da periferia

Exibido fora de competição em Cannes, Cinco Vezes Favela é produzido por Cacá Diegues e narrado por jovens que olham seu mundo de dentro

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

02 de maio de 2010 | 00h00

Era um projeto antigo. Desde os anos 1990, convidado por ONGs e associações comunitárias, Cacá Diegues ministrava cursos e participava de debates e projeções de filmes nas favelas do Rio. Há quatro anos, ele encarou o desafio de fornecer a jovens cineastas da periferia carioca as ferramentas para que estreassem em alto estilo no cinema. O resultado é Cinco Vezes Favela, que foi selecionado para uma sessão de gala, dia 18, às 17h30, no Festival de Cannes.

Seus garotos vão se vestir de gala para a montée des marches (a subida da escadaria) do maior festival do mundo?

Quem está cuidando desses detalhes é a minha mulher (a produtora Renata Magalhães). Eu preferia que eles fossem como são, jovens das favelas do Rio, mas vamos seguir o protocolo para não fazer feio. O próprio filme vai ser uma grande surpresa. Cinco Vezes Favela é surpreendentemente bom.

Por que você diz isso?

Porque é. Gosto de dizer que Cidade de Deus mostrou a favela do ângulo dos traficantes, que Tropa de Elite a filmou pela ótica dos policiais. Não vai nisso nenhuma restrição aos belos filmes de Fernando Meirelles e José Padilha, mas Cinco Vezes Favela é diferente. Há quase 50 anos, minha geração, de classe média, invadiu o morro dotada de câmeras e movida pelo desejo de colocar na tela a cara da sociedade brasileira. O Cinema Novo foi à favela, ao sertão, movido por esse desejo. Agora, são os jovens da periferia que olham seu mundo de dentro. A coisa mais bacana de Cinco Vezes Favela é que revela a favela pelos moradores. São cinco histórias e sete diretores, porque dois episódios tiveram direção dupla. Quando vir o filme, você verá que ele trata de um tema único. Nas situações- limite, o que é legal e o que é ético? Só eles, de dentro, poderiam fazer essa reflexão. O filme é forte, vai provocar impacto. E esses jovens são muito talentosos.

Como você chegou aos sete diretores?

Abrimos inscrições para cursos profissionalizantes. Inscreveram-se cerca de 600 garotos e garotas. Selecionamos 240 e os distribuímos em grupos, de acordo com as oficinas que queriam fazer. A de roteiros selecionou as sete histórias, e fomos montando as equipes. O grande mérito desse projeto é que permite a esses jovens sua inserção na economia formal do cinema brasileiro. Filmes alternativos eles próprios poderiam fazer. Agora mesmo, Evaldo Mocarzel está mostrando no Recife seu documentário Cinema de Guerrilha, sobre jovens da periferia de São Paulo que se filmam e refletem sobre a economia do cinema do País. O nosso filme é em 35 mm, feito com película. Cada equipe teve um supervisor, para garantir a qualidade técnica e artística. Você vai ver - nenhum episódio é menos acabado do que seria um filme meu, ou do mais desenvolvido diretor brasileiro.

No Recife, o documentário do Evaldo passou na mesma noite em que a Globo Filmes foi homenageada pelo Cine PE por sua contribuição ao cinema brasileiro. Não parece uma contradição em termos?

A Globo Filmes foi uma grande parceira de Cinco Vezes Favela, com a Riofilme e Eike Batista. Se não fosse o Eike, não teríamos conseguido finalizar o filme. Eu buscava dinheiro para a produção e as empresas não queriam se comprometer. Colocariam dinheiro, se o filme fosse meu, mas não era. A Globo e a Riofilme foram essenciais, como o Eike. Ele é sócio no projeto e ficou tão entusiasmado com a seleção para Cannes que está bancando a ida de dez garotos, os sete diretores e três outros integrantes das equipes. Quando digo que Cinco Vezes Favela visa a integrar esses jovens à economia formal do nosso cinema, penso o seguinte. O cinema é como um trem para as estrelas e para em várias estações. Digamos que o conceito do filme está numa dessas estações. Não é a solução para o cinema brasileiro, não aponta o caminho. Nada é definitivo. São possibilidades. Esses jovens vão fazer o cinema do futuro e nós estamos lhes possibilitando isso. Não é por acaso que o filme é dedicado a Leon Hirszman, que formatou o projeto antigo.

E Cannes?

Cannes é um sonho de cinema. Tenho sido um privilegiado indo lá todas essas vezes, mas agora é a vez deles. Sou só um instrumento. Nada me fez mais feliz do que ouvir de Gilles Jacob (o presidente do festival) dizer que Cinco Vezes Favela o devolvera às nossas origens, às origens do Cinema Novo. Cannes foi a grande vitrine para o moderno cinema brasileiro. Ainda quero fazer muitos filmes, mas é como se a minha geração estivesse fazendo uma passagem, abrindo caminho para outra geração. Dia 18 vai ser um grande dia para todos nós.

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