A história repetida, de fato, como farsa

De volta às livrarias, O Zero e o Infinito, de Arthur Koestler, dialoga com Dostoievski ao enfocar o horror do stalinismo

MARCOS GUTERMAN, O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2013 | 02h15

Impossível não pensar no Grande Inquisidor, personagem de Dostoievski em Os Irmãos Karamazov (1880), quando se lê O Zero e o Infinito, de Arthur Koestler, que ganha reedição no Brasil pela Amarilys. As circunstâncias que conduzem ambas as narrativas, centradas no interrogatório de subversivos, são semelhantes, mas não é apenas isso o que liga os dois clássicos, e sim o questionamento moral sobre a apropriação das utopias, contra a qual se insurgem os hereges, no caso de Dostoievski, e os dissidentes, no caso de Koestler.

O Zero e o Infinito, que trata dos crimes do stalinismo, foi publicado em 1941, dez anos depois que o jornalista húngaro Koestler (1905-83) entrou para o Partido Comunista da Alemanha. É, portanto, um relato que, embora envolva personagens fictícios, resulta de uma experiência vivida intensamente. A biografia de Koestler, aliás, é, em si mesma, um romance vertiginoso como o próprio século 20 - e faz falta muita nessa nova edição brasileira uma introdução que apresente esse perfil ao leitor. Koestler esteve na União Soviética sob a ditadura de Stalin; refugiou-se com o filósofo Walter Benjamin na França, fugindo dos nazistas; foi capturado na Guerra Civil Espanhola e ficou meses em solitária; foi sionista militante; submeteu-se a experiências com cogumelos alucinógenos fornecidos por Timothy Leary nos anos 60; e, depois de muito insistir, conseguiu dormir com Simone de Beauvoir - episódio que, conforme diz o historiador Tony Judt, resumiu-se apenas a uma "noite de sexo ruim".

Com O Zero e o Infinito, Koestler pretendia denunciar a farsa dos chamados "Julgamentos de Moscou", ocorridos entre 1936 e 1939, por meio dos quais toda a liderança do Partido Comunista da URSS foi liquidada a mando de Stalin. Os antigos membros do Comitê Central foram forçados a "confessar" sua participação em supostos complôs contrarrevolucionários. A "confissão" tinha de ser encarada não como uma afronta à consciência, mas como uma tarefa partidária, pois o PC, portador da "Verdade", jamais poderia ser contrariado; logo, se o Partido considerou que havia uma conspiração, era preciso haver conspiradores, e eles foram produzidos em interrogatórios que Koestler explora com intensidade e sarcasmo.

O personagem central é um desses líderes, o fictício Nicolas Salmanovich Rubashov, um dos "velhos moralistas" que passaram a questionar os rumos da revolução. Por outro lado, Rubashov não consegue odiar Stalin "como deveria" - o horror que emanava da figura do "Número 1" resumia-se justamente à possibilidade de que o ditador afinal estivesse certo, e isso só seria confirmado pela História, na qual os militantes comunistas tinham de ter fé absoluta. No futuro, ironiza Koestler, seria possível determinar o triunfo do totalitarismo apenas pelo exame do cérebro de Stalin, pois a História é "mais oráculo que ciência".

Mas Rubashov enfatiza permanentemente sua decepção com o Partido, cujos dirigentes, em sua opinião, haviam vendido a alma ao Diabo, na expectativa de absolvição histórica, e traído a massa que julgavam conduzir: "Naquele tempo nós fizemos História; agora vocês fazem política", diz Rubashov a um de seus interrogadores. Ainda assim, ele estava consciente de que não era possível fazer aquela revolução "pelas regras do críquete" e que a virtude tornara-se algo irrelevante, pois só o erro importava - e quem errasse, isto é, quem se dispusesse a contestar os rumos da revolução, deveria ser eliminado.

O argumento central, para os propósitos da revolução, é que não existe liberdade fora do dogma do Partido segundo o qual os fins justificam os meios. A moral revolucionária, assim, rejeita o remorso como uma "devassidão repulsiva", como diz o interrogador de Rubashov, para quem o regime comunista estava arrancando a pele velha da humanidade e dando-lhe uma nova, processo que não era para "gente de nervos fracos". Segundo ele, os maiores criminosos da História são aqueles que dão ouvidos à "voz interior" e deixam de cumprir os desígnios históricos. Referindo-se criticamente a outro clássico de Dostoievski, Crime e Castigo, em que um criminoso luta contra sua consciência para justificar um crime, o interrogador diz que a História é amoral a priori, pois "não tem consciência". Para o interrogador, aliás, "todos os exemplares de Crime e Castigo deveriam ser queimados", porque o livro propõe um falso dilema: a equação só faria sentido se Raskolnikov, o criminoso de Dostoievski, tivesse cometido seu crime a mando do Partido, para obter fundos para a revolução. Logo, Raskolnikov só é criminoso porque cometeu o crime movido por questões pessoais, de modo que, segundo a visão revolucionária, ele não era verdadeiramente livre.

Já no episódio do Grande Inquisidor, de Os Irmãos Karamazov, um velho cardeal manda prender Jesus Cristo e, ao interrogá-lo, diz que ele, Cristo, errou ao dar o livre-arbítrio à humanidade, pois era um fardo pesado demais, e agora a Igreja estava corrigindo esse erro, substituindo a liberdade pela segurança do dogma. Em resposta, Cristo beija-lhe os lábios, como a atestar que somente um homem verdadeiramente livre é capaz de perdoar. Já Rubashov é prisioneiro de suas dúvidas, cede sua alma ao Partido e, exausto, aceita a morte como único meio de superá-las.

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