Renato Mangolim/Divulgação
Renato Mangolim/Divulgação

A história que é feita de muitas histórias

Grupo carioca entrevista o público para conceber sua dramaturgia

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

19 de janeiro de 2011 | 00h00

Um dia, a mãe diz para o filho de 4 anos que está cansada. Muito cansada. E precisa dormir. Ele, então, vai ter que ficar um pouco sozinho. Brincando. Mas daí o menino começa a pensar. A se perguntar coisas que nunca antes lhe tinham ocorrido: E se o pai nunca mais voltar?, constatou, assustado. E se a mãe dormir para sempre? E se ele ficar sem ninguém?

Assustado, ele acorda a mulher. Conta tudo o que pensou e escuta: "O que você está sentindo é angústia. E você é muito novo para isso."

A história desse garotinho precocemente aflito faz parte de NãoTemNemNome, peça que estreia hoje no Sesc Pompeia. Mas quem for ao espetáculo não deve esperar ouvir esse episódio. Na verdade, não dá para dizer ao certo pelo que esperar.

A cada nova récita é o público quem determina o que será visto em cena. Mas essa também não é uma parte simples de explicar.

Não existe um cardápio de cenas prontas a serem escolhidas. Não há votação. São as histórias da plateia - de cada um que estiver sentado ali - que vão fornecer subsídio para a dramaturgia. "Sabe aquela coisa que as pessoas de teatro gostam de dizer: que cada dia é um novo espetáculo? Então, aqui é verdade. A cada dia fazemos um espetáculo completamente diferente", conta o diretor Emanuel Aragão.

Antes de assistir à peça propriamente dita, o espectador participa de uma espécie de entrevista, um encontro individual que precisa ser agendado previamente. Diante do dramaturgo (ou de algum dos atores), o conviva vai escutar histórias, conversar sobre a vida e responder a um extenso questionário: Do que mais tem medo? Quando se apaixonou pela primeira vez? O que faz primeiro na hora de tomar banho? No que pensa logo antes de dormir?

Perguntas que podem perpassar questões existenciais ou trivialidades. "Por que, afinal, como podemos definir o que é importante para alguém?", questiona-se o encenador. "Não dá para decidir isso sozinho, a priori. Tem gente que pensa muito na morte. E outros que gastam muito tempo se preocupando em quantas horas vão conseguir dormir por noite."

A busca pelo que mobiliza cada um ao longo da vida inteira será o mote do grupo, que também se detém na dificuldade de nomear certos sentimentos e sensações.

Na segunda parte, o público retorna ao teatro para acompanhar a encenação. Não existe palco ou qualquer divisão entre a cena e a plateia. Todos se sentam em um grande círculo para ouvir as histórias que estão sendo contadas, como se estivessem ao pé de uma fogueira.

O narrador. Ainda que a cia. não explicite suas referências, parece nítido o vínculo com a figura do narrador descrita por Walter Benjamin. Alguém que retira da experiência - da própria ou da alheia - o que está a narrar. Uma forma artesanal de comunicação, que incorpora à fala de quem narra as interferências de seus ouvintes.

Durante a apresentação, atores misturam depoimentos recolhidos durante a primeira etapa com fatos de suas vidas e trechos retirados de obras literárias. Pode ser a autobiografia de Ingmar Bergman ou alguma coisa escrita por Samuel Beckett. Ou é plausível ainda que algum personagem de Guimarães Rosa ganhe matizes apreendidos de algum relato anônimo ouvido pela rua.

Quais são as histórias verdadeiras? Quais foram inventadas? Quem viveu o quê? Constantemente, NãoTemNemNome põe em xeque os limites entre ficção e realidade. À sua maneira, faz lembrar Jogo de Cena, o grande filme de Eduardo Coutinho.

UMA PEÇA, DUAS ETAPAS

Primeira parte

Antes de assistir à encenação, o público participa de um encontro com o grupo, que deve ser agendado previamente com a produção pelo telefone 11 7377-7282. Durante a entrevista, que é  individual, o futuro espectador responde a um extenso questionário.

Segunda parte

Para ver o espetáculo não é necessário participar da etapa da entrevista. A escolha cabe ao espectador. Com o material recolhido durante as entrevistas, atores e diretor concebem a dramaturgia e encaixam os relatos em uma estrutura cênica preconcebida.

NÃOTEMNEMNOME

Sesc Pompeia. Rua Clélia, 93, 3871-7700 (inscrições para a parte 1, 7377-7282). 4ª a sáb., 20h30. R$ 12. Até 19/2.

 

 

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