Orlando Sierra/AFP - 3/12/2019
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Mario Vargas Llosa
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A história omitida

Poucas vezes li um livro tão aterrador que mostrasse o futuro que nos espera se continuarmos sendo tão suicidas e estúpidos, construindo no mundo essa abundância de centrais nucleares que poderão tirar nossa existência, como em Chernobyl

Mario Vargas Llosa, O Estado de S. Paulo

20 de outubro de 2020 | 03h00

Ver a bela Taormina sem turistas é muito triste. As casas aparecem suspensas nas colinas como a ponto de caírem num mar profundo; os hotéis, os bares, os restaurantes e as lojas choram de pena com seus proprietários e funcionários de braços cruzados nas portas, esperado que os improváveis clientes os salvem da ruína. 

Mas, em meio a essa desolação, está essa força da natureza, Antonella Ferrara, que tornou possível este milagre, a realização de novo neste ano do festival literário Taobuk, e com Svetlana Aleksiévitch, jornalista da Bielo-Rússia, que ganhou o prêmio Nobel de Literatura como convidada de honra. A cerimônia terá lugar no belíssimo teatro grego (que na realidade é romano), como sempre.

Embora eu adore Taormina e a Sicília, estou aqui especialmente por Svetlana. Li o seu livro sobre Chernobyl (Vozes de Chernobyl) e, pela primeira na vida, tive vontade de conhecer a autora e conversar com ela. Uma conversa frustrada porque ela fala somente o russo, além da sua língua natal, e era acompanhada por uma tradutora búlgara, o que não facilitava as coisas.

Svetlana é uma mulher muito simples, de 72 anos, que estudou e se dedicou ao jornalismo durante toda a vida e agora tem problemas com o chacal que aterroriza seu país há 26 anos, Alexandr Lukachenko. Ela é um dos sete líderes do Conselho de Coordenação que comanda a oposição contra a fraude eleitoral que ele armou para se eternizar no poder. Depois de Taormina, ela pretende se refugiar na Alemanha porque teme ser presa em Minsk, onde reside.

Em Vozes de Chernobyl, e imagino que em suas outras reportagens publicadas em revistas e jornais, depois compiladas em livros, ela dialoga com centenas de homens e mulheres sobre aquela questão central e depois transforma essas conversas em monólogos de pessoas isoladas, ou de grupos humanos com uma grande diversidade de opiniões, fornecendo uma exposição riquíssima do que ocorreu – no caso de Chernobyl, a explosão de um dos quatro reatores da central nuclear – que permite ao leitor criar uma opinião a respeito ou, como neste caso, flutuar num mar de dúvidas.

O que sucedeu de fato naquela pequena cidade ucraniana, situada bem perto da fronteira bielo-russa e russa, 1h23 de 26 de abril de 1986, quando, devido à explosão, um quarto do reator foi destruído como também o edifício que o abrigava, naquela central nuclear? Tomamos conhecimento do fato de uma maneira fragmentada: pela esposa recém-casada de um bombeiro chamado para apagar o incêndio e que parte para lá como estava, com calça e camiseta sem mangas. E pelos gatos apreensivos que subitamente deixaram de comer os milhares de ratos mortos que aparecem nas ruas. 

A mulher do bombeiro irá encontrá-la em um hospital de Moscou dias depois, agonizante, com o corpo coberto de chagas putrefatas. E os gatos de Chernobyl também perecerão, contaminados pelas radiações ou abatidos pelos soldados com ordem de não deixar nenhum animal vivo na região que poderia contaminar as pessoas. Assim vão aparecendo camponeses, professores, dirigentes políticos, adolescentes, idosos, médicos, historiadores, militares, pastores, e essas estranhas profissões que surgiram do nada, de gatunos, dosimetristas, liquidatários e os avós daquela garota aterrorizada que se enforcou.

Era a época de Gorbachev e da perestroika e ele desejava salvar o comunismo e a União Soviética abrindo o país ao diálogo, e com vestígios de liberdade por todos os lados. Mas já era muito tarde, o comunismo e a União Soviética estavam mortos e enterrados e as aparições na TV do novo líder, acalmando os ânimos, garantindo que a normalidade havia sido restabelecida em Chernobyl, não convencia ninguém, principalmente aqueles que, naquela enorme área afetada, continuavam se contagiando, adoecendo, morrendo, as mulheres dando à luz crianças calvas, sem dedos, sem orelhas e sem olhos. As igrejas ficavam lotadas e os agentes do governo choravam copiosamente com os corpos atacados pelos “rem” ou os “Roentgen”, que no final tinham aprendido a diferenciar, mas inutilmente.

Poucas vezes, li um livro tão aterrador que mostrasse, de modo tão claro, o futuro que nos espera se continuarmos sendo tão suicidas e estúpidos, construindo no mundo essa abundância de centrais nucleares que poderão tirar nossa existência, como as vítimas de Chernobyl, em uma destruição mundial da qual ninguém escapará, salvo, talvez, algumas espécies de bactérias meio seres vivos, meio pedras.

A mulher que escreveu o livro, Svetlana Aleksiévitch, está à minha frente e não perdeu a razão ao escrever essas páginas explosivas. Ela come lentamente, com um certo apetite, afastando o véu que cobre metade do seu rosto e que, segundo as línguas viperinas, é por causa das radiações que sofreu quando coletava aquele material de Chernobyl. 

Passando pelo russo e o inglês, que ela mal fala, digo-lhe que seu livro me deixou acordado várias noites e ela me pergunta sobre os incas. Existe muita literatura sobre a sua mitologia?, ela pergunta. Respondo que sim, mas como eles não conheciam a escritura, foram os cronistas espanhóis que recolheram os primeiros testemunhos sobre os deuses e os milagres do império inca. Svetlana não conhece a América Latina e gostaria de visitar o continente uma vez.

Não lhe pergunto, claro, sobre o que ela não diz em seu livro e tampouco na esplêndida série que foi feita baseada nele, e que ninguém sabe e, evidentemente, jamais saberá: O que se passou exatamente em Chernobyl naquela noite assustadora? De quem foi a culpa? Foi um erro humano? Uma máquina mal projetada? Por que algo que não deveria explodir de maneira nenhuma acabou explodindo? 

Eram perguntas que todos faziam, a começar por Gorbachev, que, tanto no livro como no filme, subsistiu a essa pesquisa extraordinária e quase perfeita que resultou em Vozes de Chernobyl. Perguntas que não têm respostas por uma razão óbvia, mas que não pode ser mencionada. Ninguém sabe, ou melhor, todos sabem, mas não se pode e nem se deve dizer. Por quê? Por uma razão muito simples: porque somos todos culpados, por ação ou inação. 

Desde o funcionário de última categoria que falseava suas informações para se valorizar e justificar seu trabalho, até o diretor da central que fazia o mesmo, e pelas mesmas razões, para dar a entender a seus chefes que ali tudo corria bem porque havia alguém que sabia fazer seu trabalho, etc. Todos mudavam um pouco, ou muito, a verdade, porque não podiam fazer outra coisa sob pena de se debilitarem ou ficarem vulneráveis às sanções e à silenciosa luta contra todos, que era a vida dentro do sistema. 

Quem, e o que, falhou? Todos e nenhum, ninguém falhou, simplesmente ocorreu e não é possível e nem conveniente perder tempo procurando averiguar. O melhor – e nisto está a genialidade do livro e da série – é calar e enfrentar as consequências do ocorrido, mesmo que seja se suicidando, como o professor que explodiu os miolos, depois de tirar os sapatos como todas as noites.

Despedi-me de Svetlana Aleksiévitch dizendo que a admiro muito, que poucos escritores fizeram em prol da literatura desta época o que ela fez ao escrever um livro que acreditava ser apenas jornalismo. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

MARIO VARGAS LLOSA É ESCRITOR PERUANO, AUTOR DE ‘CONVERSA NO CATEDRAL’ E ‘A GUERRA DO FIM DO MUNDO’

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