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A história fatiada

Livro de Gerson Conrad não ajuda a elucidar fenômeno, mas traz duas ou três boas fofocas

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2013 | 11h48

“De que forma esses três rapazes puderam, em apenas seis meses, vender 500 mil discos, lotar teatros e clubes em São Paulo e Rio e ginásios e conchas acústicas em Porto Alegre e Salvador? Como foi possível encher o Maracanãzinho, deixando do lado de fora uma multidão capaz de lotar outros dois Maracanãzinhos? De que maneira eles conseguem simultaneamente rodopiar na vitrola do industrial que toma sol no Guarujá e obter a bênção dos dramaturgos de vanguarda? Arrancar gritos da gordinha que viajou durante 17 noites seguidas de Nilópolis para o Teatro Tereza Rachel e, ao mesmo tempo, ser aplaudidos por médicos, bancários, avós, filhos e netos?”.

O texto no Jornal da Tarde, no dia 6 de abril de 1974, mostrava assombro com a abrangência e a complexidade do fenômeno Secos & Molhados. Pouca coisa, dados os recortes de imprensa reunidos no livro Meteórico Fenômeno, tinha sido tão original e arrebatador na música pop brasileira até então.

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A fotobiografia é superficial e traz poucas novidades sobre a banda. Conrad conta que eles eram assediados por multinacionais concorrentes para se separarem, com ofertas assombrosas. Fala que o grupo era “careta”, não curtia drogas, e que um baseado coletivo quase pôs a perder um show em Santo André (SP). Um show em Brasília teve a energia elétrica cortada a pedido da sogra do Ministro das Minas e Energias, presente ao show. A sogra ficou escandalizada com o peito nu e o rebolado de Ney Matogrosso. E Conrad revela que a sigla SPPS Produções Artísticas Ltda., a empresa da banda, significava “Sua P... Porca Suja”.

Gerson Conrad e João Ricardo (compositor e cérebro musical do grupo) foram apresentados a Ney Matogrosso por Luli, cantora da dupla Luli e Lucinha, que conheceram no clube underground Kurtisso Negro. Ela contou de “um rapaz que era ator e dono de uma voz belíssima” que morava no Rio de Janeiro. “No final de outubro de 1970, desembarcamos, João e eu, na casa de Luli, no Morro de Santa Tereza. Lá, conhecemos Ney Matogrosso e em pouco tempo sabíamos, sem sombra de dúvidas, que Ney era o intérprete que convidaríamos.”

Ney chegou a São Paulo em novembro de 1971, de mala e cuia. Naquele mesmo ano, gravaram a música Voo, composição de João Ricardo, para uma montagem teatral de Antunes Filho – seu primeiro disco sairia em 1973, 40 anos atrás (hoje, João Ricardo, ao lado de Daniel Iasbeck, prossegue gravando e fazendo projetos, inclusive comemorativos, sob o nome do grupo, mas numa versão atualizada).

O make-up causou furor. “Na época, já havia um sentimento diferente. Havia o New York Dolls, o David Bowie, o Alice Cooper. Mas a nossa necessidade de pintar os rostos não era só estética. Era essencial. Era o momento do rock progressivo, e nós fazíamos canções. Nosso cantor tinha a voz fina. Vimos a necessidade de nos apresentarmos de maneira diferente, não éramos uma banda no sentido convencional”, lembra João Ricardo.

“Ninguém agora pode imaginar o que foram aqueles 20 anos de censura, quando a gente podia ser preso por dizer uma palavra”, diz a cantora Luli, que é a autora de um dos maiores sucessos do grupo, O Vira. “O público entrava em êxtase quando ouvia coisas como O Patrão Nosso de Cada Dia ou Tem Gente com Fome, numa embriaguez de liberdade”, lembra a cantora.

O efeito de um show do grupo, que ninguém nunca mais viu (sua separação foi anunciada no Fantástico, pela voz metálica de Sérgio Chapelin) é descrito de muitas maneiras por quem viu. “De fato, essa tradução tem aspectos muito criativos, e o primeiro deles é a escolha para astro central de uma voz singularíssima, aqui e em qualquer parte do mundo: a voz de Ney Matogrosso, que com seu incrível registro de contratenor é uma das mais insólitas e bonitas surgidas na MPB”, escreveu Mary Ventura em 1971, no Jornal do Brasil, que dizia que era uma expressão mais próxima de uma Maria Antonieta Pons do que de um Alice Cooper”.

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