A história em jogo por um subversivo

No póstumo O Terceiro Reich, o chileno Roberto Bolaño, morto em 2003, confronta ideologia nazista em wargame

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2011 | 00h00

É quase certo que o chileno Roberto Bolaño (1953-2003) desaprovasse o lançamento póstumo de O Terceiro Reich, não exatamente por falta de qualidade literária de seu livro, escrito em 1989 e achado entre os papéis deixados pelo escritor. O fato é que O Terceiro Reich não chega a ser uma narrativa de proporções épicas como Os Detetives Selvagens ou 2666. Parece mesmo um esboço para um romance mais ambicioso que Bolaño não teve tempo de concluir e que teria como tema as relações promíscuas entre poder e literatura. Para ser mais exato, entre a literatura e os jogos de poder que escrevem a história. Até aí, nada demais. Antes dele, outros autores exploraram o assunto, com maior ou menor intensidade - o francês Georges Perec (1936- 1982), entre eles.

Perec foi uma das maiores influências de Bolaño. Tanto é verdade que um dos personagens de O Terceiro Reich desaparece, seguindo o exemplo do protagonista de La Disparition (1969) de Perec, romance lipogramático marcado pela ausência da vogal "e", a mais usada da língua francesa. Se Perec desafia o leitor a descobrir a palavra jamais citada em seu livro e que contém a letra "e", Bolaño vai além, envolvendo personagens sobre os quais cabe ao leitor inventar um passado. Rigorosamente, o único de quem tudo - ou quase tudo - se sabe em O Terceiro Reich é o narrador protagonista, o alemão Udo Berger, campeão de wargame (jogo de tabuleiro inspirado em guerras) que curte férias com a namorada na Costa Brava, litoral da Catalunha.

Afinal, por ser autor de um diário (o próprio livro), sabe-se que Berger passou a infância frequentando o hotel catalão comandado por Frau Else, beldade em que é fixado desde garoto. Os outros personagens são tão enigmáticos como o jogo em que se encontram envolvidos, a começar pelo sinistro Queimado - assim chamado pelas inúmeras cicatrizes que marcam seu corpo. Queimado pode ter sido vítima de neonazistas e, muito provável, neonazistas fixados em algum país latino-americano. Lobo e Cordeiro, dois vagabundos espanhóis que fazem a ronda noturna pelos bares da região, tanto podem ser guias turísticos como mafiosos. E o que dizer do desaparecimento do eternamente alcoolizado Charly, o namorado alemão de Hanna, casal amigo de Berger e de sua namorada Ingeborg?

Desde o começo, quem está no comando do jogo é o narrador Berger - ou Bolaño, que gostava igualmente de games, talvez pela forma com que personagens surgem e desaparecem neles com surpreendente facilidade, desafiando a lógica histórica. Ao identificar O Terceiro Reich - jogo que existe, de fato - com a verdadeira História, Bolaño queria dizer que é impossível reescrevê-la, mas não mudar suas regras, ou até mesmo suprimi-las para sempre, como deseja Queimado. Neófito no jogo, esse latino deformado pela história, que aluga pedalinhos na praia, acaba superando seu mestre Berger na arte de reinventar a guerra.

Mais uma vez, o procedimento de Bolaño faz lembrar a reconstrução que Perec fez de um poema de Goethe (Wandrers Nachtlied II) em sua peça radiofônica Die Maschine (A Máquina). Nela, Perec simula o comportamento de um computador programado para reinterpretar o tal poema de Goethe, que fala, de forma metafórica, da paz só encontrada na morte. A máquina o reescreve de 12 diferentes maneiras, até subverter seu significado, transformando-o numa peça de propaganda da supremacia alemã.

O que poderia ser uma exercício mais desesperado de arrogância que confiar a uma máquina a "tradução" de um poema? Refazer a história, responde Bolaño, incentivando o leitor a jogar com Berger no território fictício de um wargame, onde o adversário menos habilitado pode surpreender o mais preparado. Nesse exercício estratégico, o alvo é desarticular as ferramentas do poder. Berger, um alemão de 25 anos, pretende acertar contas com o passado no tabuleiro histórico em que as próprias regras do jogo têm de ser desrespeitadas para reativar a memória dos esquecidos.

A fixação de Bolaño pela Alemanha é evidente. Ele tem outro livro cujo título faz alusão a esse passado de intolerância, mas que, na verdade, diz respeito a escritores latinos que colaboraram com regimes ditatoriais de direita no continente, La Literatura Nazi en América, inédito no Brasil. Nele, autores conhecidos são citados como se Bolaño organizasse uma enciclopédia demoníaca em que poder e linguagem disputam o mesmo território. Também em O Terceiro Reich essa correspondência existe. Num jogo de espelhos, Bolaño faz do wargame um campo de batalha em que cada general tem sua contrapartida literária e em que o adversário acaba assumindo o papel do desafiador, como Queimado no espectral reflexo do suspeito Udo.

Detalhe: chama-se Conrad o companheiro de jogo de Udo, encarregado de atualizar sua correspondência e comunicação telefônica. Outro Conrad, o autor de Coração das Trevas, como se sabe, foi um escritor anticolonialista por excelência, filho de poloneses que sofreram nas mãos dos russos. Como se vê, a obsessão de Bolaño por jogos e pelas figuras de seu panteão literário manteve o escritor numa espécie de prisão, caracterizada pela obstinada busca de uma forma livre - e libertária - de escrita.

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