A história do México por Carlos Fuentes

Carlos Fuentes começou a fazer história nas letras mexicanas em 1962, quando publicou A Morte de Artemio Cruz, livro em que desnudou a decadência da revolução mexicana. Quase quatro décadas depois, ele volta a tratar dos problemas mexicanos em seu recente livro Os Anos com Laura Díaz, lançado ano passado no Brasil. Concentra-se, desta feita, no período pós-revolucionário. Apesar das semelhanças contextuais, Artemio e Laura são livros muito diferentes. Os Anos com Laura Díaz foi escrito a partir de uma perspectiva mais pessoal e a protagonista é uma mulher. "Lembro-me das histórias que contavam minhas avós e quis fazer algo com elas.", disse o autor em uma recente entrevista. Para ele, o paralelo com Artemio Cruz não foi intencional. "Estava escrevendo sobre minhas as minhas senhoras e precisei de um contraponto para a narrativa.", comentou.Em A Morte de Artemio Cruz, história do personagem título, o autor explora as (suas) lembranças. O narrador é Artemio, que próximo da morte, passa a refletir sobre sua vida. Em Laura Díaz, Fuentes utiliza-se deste recurso narrativo em parte da trama. No entanto, introduz outros narradores: um dos descendentes de Laura e um amante da protagonista, descrito pelo autor como "um sonho, um namorado irreal."Laura Díaz, como Fuentes, provém de uma família de origem alemã. Cresce em uma fazenda de café no estado de Veracruz, tempos antes da revolução mexicana. A jovem, então, se vê rodeada por homens de sua família que estão, de uma maneira ou de outra, envolvidas com as batalhas camponesas. O romance prossegue. Laura vive o período de combate à religião, a Guerra Civil Espanhola, a era de McCarthy nos Estados Unidos e a matança de estudantes mexicanos em 1968.Se em Artemio Cruz Fuentes descreveu um sistema corrupto, mas distante de sua época, em Laura Díaz ele faz um mural pintado a base de recordações, de reflexão sobre um México que viveu e está em vias de desaparecer. Sobre a vida de hoje em seu país, após a vitória do presidente Vicente Fox, que derrotou o Partido Revolucionário Institucional (PRI), o intelectual disse: "Não creio que existam mais Artemios no México. Apenas restos do PRI, de todos esses repteis, dinossauros, que sempre andavam por aqui. Esses são os últimos herdeiros de Artemio Cruz."Fuentes é filho de diplomata, e ele também já foi embaixador. É afável e elegante e não parece aparentar seus 72 anos de idade. Sua casa fica em uma rua estreita, de pedras. Nela apenas se sente o ruído da cidade caótica que a rodeia. "É ideal para escrever, para passar o dia inteiro exilado.", disse o autor. Naturalmente, Fuentes escreve em Londres, onde passa metade do ano, e onde pode evitar a pressão de ser uma figura pública. "Posso levantar às 6h da manhã e escrever das 7h às 12h", comenta acerca de sua vida na capital inglesa. "Posso vivenciar todas as experiências necessárias no México, mas quando posso escrever?", questiona-se. Fuentes tem abordado repetidas vezes a questão dos direitos indígenas, bandeira de luta da Frente Zapatista de Libertação Nacional. No entanto, preocupa-se com a figura do Sub-Comandante Insurgente Marcos, que para ele tornou-se herói das forças anti-capitalistas de todo o mundo."Marcos quer uma revolução com letra maiúscula", disse Fuentes. "Quer mudanças absolutas e isso não será possível. A sociedade não deseja e não vai tolerar isso. Temos nos tornado uma sociedade democrática, gradual, que crê mais na evolução do que na revolução", afirmou. A amplitude temática de Os Anos com Laura Díaz permite ao escritor explorar questões como a Guerra Civil Espanhola, cujos refugiados, muitos deles, se dirigiram ao México, e as perseguições aos comunistas capitaneada pelo senador norte-americano McCarthy. Valendo-se desses planos verdadeiros, Fuentes denuncia a intolerância dos períodos. "A história se forja com traições, vinganças e sangue", afirmou o autor.

Agencia Estado,

07 de fevereiro de 2001 | 19h26

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