A história do filme que mudou a cabeça de Glauber Rocha

Análise: Luiz Zanin Oricchio

O Estado de S.Paulo

31 Janeiro 2012 | 03h07

Linduarte Noronha tinha plena consciência do seu valor. Uma das histórias que conta parece suficiente para definir o valor de Aruanda no contexto do cinema brasileiro. Ao vê-lo, o então iniciante Glauber Rocha teria exclamado: "Como fui burro! Como fui burro!". A que burrice o futuro pai do Cinema Novo se referia? Àquela que o havia impedido de enxergar o melhor caminho para o cinema que sonhava - que se queria crítico, esteticamente inovador, ancorado na cultura do povo brasileiro, porém sem paternalismo. Aruanda, o curta-metragem de Linduarte, era tudo isso. Muito diferente do primeiro filme do próprio Glauber, o belo, porém estetizante, O Pátio.

Dessa forma, Aruanda, esse filme de meros 22 minutos, que nasceu de uma reportagem, tornou-se uma espécie de farol para o que viria depois dele, e abriu os caminhos para o Cinema Novo. Muito se fala, às vezes de maneira irresponsável, em obras seminais. Aruanda é uma delas.

A gênese dessa obra merece ser recordada. Antes de ser cineasta, Linduarte era jornalista e crítico de cinema em diários da Paraíba. Ele, e o correspondente do Estadão em João Pessoa, Dulcídio Moreira, tinham ouvido falar de uma comunidade quilombola na Serra do Talhado, que sobrevivia da manufatura de potes de barro, uma técnica ancestral. Ambos subiram ao Talhado em 1957, em lombo de jegue. Linduarte publicou sua matéria no jornal A União, e Dulcídio a sua, no Estado, com o título "Talhado não é mais que uma longínqua favela". A reportagem foi considerada tão importante que mereceu chamada de primeira página no Estadão.

O material jornalístico era ótimo ponto de partida para um filme. Só que Linduarte não dispunha de uma câmera. Seguiu para o Rio, e pediu apoio técnico a Humberto Mauro, então diretor do Ince (Instituto Nacional de Cinema Educativo). Mauro cometeu a ousadia de atender ao pedido do rapaz, que voltou à Paraíba com uma câmera Bell & Howell e disposição de fazer história. Aliou-se ao fotógrafo Rucker Vieira e tornou a subir ao Talhado.

O filme que saiu dessa aventura, além da importância histórica, impressiona até hoje por seu vigor. É uma imersão de verdade no cotidiano de um povoado de economia praticamente fechada. Acompanha a manufatura dos objetos de barro e a tentativa dos habitantes de vendê-los no vilarejo mais próximo. Uma existência de grande precariedade, porém filmada com um senso cru de beleza, que não procura jamais estetizar a pobreza. Aruanda parece muito moderno. O que não surpreende, pois foi um dos filmes que ajudaram a construir a modernidade com a qual nos habituamos.

Há um dado interessante sobre esse documentário prototípico - ele começa por uma parte de ficção, na qual descreve a chegada dos quilombolas ao local, no século 19. É um prólogo. Linduarte explicou o procedimento quando seu filme comemorou meio século de existência, em 2010: "Não havia escolha. Eu não queria usar narrativa em off e tinha de mostrar como eles haviam chegado à Serra do Talhado". E, uma vez lá instalados, como sobreviveram até chegarem em 1960, quando o País já tinha uma indústria automobilística e eles viviam da fabricação de potes de barro. Esse contraste social, além da estética ousada, apontou ao Cinema Novo o caminho a seguir.

Em 22 minutos, Linduarte Noronha havia mudado o curso do cinema brasileiro.

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