A história desconstruída em histórias

Em Minas do Ouro, Frei Betto recria o Brasil - de Tomé de Sousa à ditadura dos anos 1960 - num romance inovador

Marisa Lajolo, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2011 | 00h00

Minas do Ouro, de Frei Betto, é um romance de leitura fácil e envolvente. O leitor não larga o livro, comentando com amigos o que está lendo, tentado a mandar torpedos ou mal traçadas para o autor, dizendo quanto encontrou na história lida ecos da sua.

A partir da epígrafe tomada a Alvarenga Peixoto, o livro enlaça num abraço de amor os cinco séculos de história do Brasil, particularmente o que desta história se projeta sobre Minas Gerais. Minas do ouro, minas de ouro, ouro de Minas, ouro das minas.

Dividido em 12 capítulos (intitulados e numerados como apontamentos), mais um prenúncio e mais um epílogo, Minas do Ouro lança mão dos melhores recursos de que se vem valendo a narrativa romanesca desde que o gênero foi inventado na velha Inglaterra do século 18. Não faltam documentos secretos, identidades misteriosas, episódios de loucura, mulheres sábias, amores imensos e lutas de morte.

O resultado é uma trama bem urdida, que arrasta o leitor de um episódio para o outro.

Costura as peripécias romanescas o fio da história do Brasil de Tomé de Sousa aos generais dos anos 60 do século passado. E é nesta tecelagem que o romance inova.

Inova na tradição canônica do gênero, sobretudo na maneira de trazer a História (assim mesmo, com maiúscula) para sua história. Desenrola-se neste livro uma versão nova de uma modalidade romanesca bastante antiga e atualmente muito prezada: o romance histórico.

Ao entretecer a história da linhagem dos Arienim - de quem o leitor acompanha 11 gerações - com episódios da história do Brasil, o autor reverte e desconstrói o caráter monumental e heroico de que geralmente se revestem figuras e episódios convocados para a ficção. Os bandeirantes, por exemplo, que em vários e importantes momentos da narração comparecem à história com nome e sobrenome, ficam doentes, roncam e babam quando dormem e aderem a técnicas pouco charmosas de guerra e de sobrevivência no mato.

Enquanto isso se dá no enredo, onde ganha espaço a concretude trivial do dia a dia, a busca do ouro e de diamantes é o motor das ações das personagens: a ambição é tanta que transfigura a paisagem. Ora o leitor viaja pela terra sem males dos nativos, ora pelas montanhas de pedras preciosas dos colonizadores, onde o brilho do ouro contamina o sol que não se deita nunca, parece que tomado de insônia.

Faz um tempinho que se vêm multiplicando livros sobre história do Brasil. Se este livro de Frei Betto encontra seu lugar nesta respeitável estante, ele também exige nova arrumação dos volumes.

Pois a ausência de grandes heróis em suas páginas faz toda a diferença.

Mesmo que parodiados ou ironizados, grandes heróis acabam sempre roubando a cena. Mas nesta saga dos Arienim, nenhum herói goza de espaço privilegiado. Esta desconstrução radical do heroísmo épico corre por conta da voz narrativa que, em primeira pessoa, vai desfolhando sua árvore genealógica: transcrevo, em forma de apontamentos, o desfecho do misterioso mapa que trafegou, de geração em geração, pelos tortuosos galhos da árvore genealógica dos Arienim (pág. 9).

São estes arienins ancestrais que, contracenando com heróis da outrora chamada história pátria, meio que roubam a cena. Levam o leitor para um cotidiano de ninharias raramente presente em romances históricos mais canônicos e conferem verossimilhança à narrativa. A voz do narrador orquestra a história que conta com uma bem-vinda ironia, instaurada pelo olhar desconfiado e divertido com que olha o passado, tecendo seu enredo numa voz atenta tanto às infinitas potencialidades da língua portuguesa, como a modos de dizer de sabor antigo que o leitor tem vontade de sublinhar para salpicar aqui e ali em sua vida.

Fruto, com certeza de cuidadosa pesquisa, as quase 300 páginas do romance levam o leitor a percorrer, pelos atalhos das Minas Gerais, um Brasil em constante reinvenção. Um Brasil de brasileiros que volta e meia precisam ser lembrados de que quem não agiliza as pernas logo perde a cabeça. A chegada da história ao século 20, amarra as pontas do enredo e, ao amarrá-las, abre espaço para o noticiário contemporâneo, trazendo para o romance fatos de que o leitor ouviu falar em noticiário de jornal ou televisão.

Numa ousada e bem-sucedida cambalhota rocambolesca, numa certa altura, a história ganha o irresistível charme dos bastidores de Hollywood: o leitor sorri, definitivamente rendido à voz macia do narrador. Sem necessidade de confirmar no Google nenhuma das informações das quais o livro é tão pródigo, o leitor reforça o crédito de confiança ao narrador que foi capaz de articular chacina de índios numa região longínqua da Amazônia no século 20 e uma saga familiar que começou com um Fulgêncio Arienim lá atrás, no século 16, num Brasil recém-descoberto.

E aprende a lição de que um país não se faz apenas de História, mas sobretudo de histórias. Histórias como esta.

MARISA LAJOLO É PROFESSORA DE LITERATURA DA UNIVERSIDADE PRESBITERIANA MACKENZIE E DA UNICAMP

MINAS DO OURO

Autor: Frei Betto

Editora: Rocco

(270 págs., R$ 29,50)

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