A história de Peté

Como sempre na literatura, é a forma que enriquece ou empobrece o conteúdo

Mario Vargas Llosa, O Estado de S.Paulo

13 Março 2018 | 02h00

Fiquei muito intrigado quando Peté (que se chama, na verdade, Pedro Llosa Vélez) me pediu uma reunião, explicando que tinha alguma urgência. Era meu primo em primeiro grau, mas, dada a diferença de idade - eu tinha quase quarenta anos a mais -, acostumei-me a pensar nele como meu sobrinho. A família Llosa estava muito orgulhosa de Peté, que, desde criança, mostrava sinais de ser um gênio. Ele havia feito estudos muito brilhantes em uma das melhores escolas de Lima, a britânica Markham, e depois, graças a suas excelentes notas, obteve uma bolsa de estudos em uma das universidades mais exclusivas para estudar a carreira da moda: Economia, é claro. Ele se formou com honras e de imediato foi contratado por um banco. Abria-se para ele, quem iria duvidar, um futuro dourado. Por que ele teria pedido aquele encontro comigo?

Conversamos em meu escritório, em Barranco, naquela hora em que o sol se funde com o mar e incendeia o horizonte. As coisas que Peté me confessou me causaram surpresa e espanto. Ele cometeu um erro em sua profissão, e não queria, dentro de dez ou quinze anos, ser a pessoa que era seu chefe no banco e, como ainda era jovem, teria tempo de dar uma reviravolta completa em sua vida, seguindo agora sua verdadeira vocação. “E qual é?”, perguntei, apavorado. Literatura, é claro! Pensei que seus pais e, talvez, toda a família acreditassem que era minha culpa, que eu tinha colocado tanta estupidez na cabeça de Peté, que deveria estar frustrando a última chance de um parente tornar-se um milionário.

Juro que fiz o que pude para impedir essa catástrofe, imitando monges budistas zen que, quando um aspirante ao noviciado bate na porta de seu mosteiro, não só tentam dissuadi-lo, com tentam ajudá-lo a compreender. Eu assegurei a Peté que escrever era um prazer, sim, sem dúvida, mas nada alimentício, pois nem mesmo um por cento dos escritores do mundo vive de sua caneta, e precisa procurar empregos mais nutritivos, geralmente mal pagos, que lhes rouba o precioso tempo que gostaria de dedicar a escrever seus livros, e em muitos, em tantos casos, todos esses sacrifícios não serviram para grande coisa, porque suas obras não eram reconhecidas, nem sequer chegavam a ter leitores, porque não valiam muito, ou, se valiam, eles só eram reconhecidos postumamente, quando ao frustrado escritor os vermes já haviam devorado.

Mas Peté, na verdade, não queria conselhos, mas sim uma testemunha daquela decisão temerária e audaciosa, que ele colocou em prática logo depois. Renunciou ao banco, encontrou um cargo de professor e matriculou-se Faculdade de Letras da Universidade de São Marcos. Com as viagens, deixei de vê-lo por um bom tempo e, de repente, dois ou três anos depois, comecei a encontrar seus textos em revistas literárias: prosa, histórias curtas, experiências, mais indicações de busca do que conquistas, até que, de repente, ele me enviou uma pequena coleção de histórias - a primeira que publicou, penso eu - e um dos textos deixou-me muito comovido. Ele foi inspirado por seu pai, meu tio Pedro, um médico que, se bem me lembro, havia falecido há pouco tempo. Foi uma lembrança muito pessoal, escrita com elegância e sagacidade, que alcançou algo que não é fácil na literatura, onde os personagens maus são geralmente os mais interessantes e atraentes e os bons, de outra parte, sempre parecem madame Bovary ou os anônimos e tolos coléricos de Kafka, pessoas pobres de espírito. Peté elaborou sua história para mostrar o médico como um homem digno, limpo e de bom coração e, ao mesmo tempo, lúcido e sutil, com um código moral que tinha imposto a si mesmo e que seguiu ao pé da letra, em uma vida estoica, de heroísmo discreto e cotidiano.

Antes ou depois que esse livro fosse publicado, Peté conseguiu obter uma bolsa de estudos holandesa e esteve em Amsterdã um par de anos, especializando-se em Filosofia da Ciência (é claro que sua doença não era curável). Eu o vi há algumas vezes. E, o pior de tudo, é que, dificuldades à parte, parecia muito feliz.

Mas a maior das surpresas eu tive agora, quando recebi e comecei a ler o livro que acabou de ser publicado: La Medida de Todas las Cosas (A medida de todas as coisas, em tradução livre). São seis longas histórias, ou romances curtos, textos para os quais a linguagem, os relatos e os personagens, mas, acima de tudo, a arquitetura e os pontos de vista a partir dos quais as histórias são contadas, aproximam-se de tal modo que parecem capítulos de uma novela.

Como sempre na literatura, é a forma que enriquece ou empobrece o conteúdo, e a forma é mais bem-sucedida quanto mais invisível for. Isso acontece com essas histórias e, em cada uma delas, o leitor tem certeza de que era esse, e nenhum outro, o único meio de contar, para que fossem relatos tão genuínos, tão persuasivos, tão sutis. Todos são excelentes, sem nenhum que enfraqueça ou debilite o conjunto, e todos mostram a segurança e o domínio de um narrador que se aproxima ou se afasta, é exibido ou desaparece para impregnar mistério, drama, nostalgia ou humor naquilo que conta. Eles se passam no Peru ou na Holanda, mas menos importa a geografia e mais a sutileza com que o leitor vive os problemas psicológicos, sentimentais e políticos experimentados pelos personagens e a facilidade com que cada um deles entra em nossa intimidade para que possamos compartilhar de seus fracassos, suas fantasias e seus dramas.

Desde a primeira história, que é uma homenagem a Onetti, até a última, que dá título ao livro e relata a imolação de um talento intelectual pela ganância, todas se passam em um curioso nível de realidade, o que combina com facilidade o mundo objetivo e o subjetivo, os fatos e os memórias, um passado que se confunde com o presente e vice-versa, algo que dá às histórias uma aparência de totalidade, como se tivessem a autossuficiência de uma esfera.

Há uma, acima de tudo, que reli até três vezes e, em cada uma, ela me pareceu ainda melhor. É chamada de Caçadores de Ostras e acontece em uma daquelas praias do litoral limenho que as construções e os balneários foram cercando e asfixiando. O personagem-narrador, que quer romper com sua namorada, acostumado desde criança a acampar ali com a família, observava grandes pássaros, talvez os chamados “caçadores de ostras” que estavam sempre em duplas e dedicavam seu tempo a bicar as ostras e comer suas entranhas. A nostalgia daqueles acampamentos, que terminou quando a família foi atacada por alguns supostos “revolucionários”, vai impregnando a prosa e a transforma em poesia por momentos. No final, o personagem consegue romper com sua namorada e nos deixa com a suspeita de que nunca mais pisará nessa praia.

Deu-me um grande prazer ler este livro, Peté. Essa aposta insensata que você fez, sobre a qual conversamos naquele distante crepúsculo e que deve ter dado tantas dores de cabeça a seus pais, estava totalmente justificada. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO 

É PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA

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