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Ignácio de Loyola Brandão
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A história contada por um vestido preto

Roupa que tinha sido de Anna Candida poderia render um filme, uma noveleta, um conto

O Estado de S.Paulo, O Estado de S.Paulo

17 de janeiro de 2020 | 03h00

A vida não precisa ser complicada o tempo inteiro. Num desses encontros de começo de ano, Dora elogiou o vestido de Magali. Feliz, esta comentou: “Sabe que tenho há seis anos? É a vantagem de comprar coisa boa”. Pouco depois, por acaso, Anna Candida comentou: “Pois tenho um vestido há oito anos, gosto dele, é daquelas roupas que não acabam nunca. Mas vez ou outra ao vê-lo, pergunto: ainda?”.

Nessa altura, a conversa tomou rumo, cada uma daquelas mulheres tinha uma roupa que adorava, mas era repetida, repetida, e vinha sempre a dificuldade de se desfazer da peça. Todas aquelas mulheres sempre deixaram roupas nas caixas das campanhas sociais para necessitados. Mas cada uma tinha peças especiais e relutavam em se desfazer delas. Havia algo que as prendia. Uma boa lembrança, um momento especial, o sentir-se bem dentro delas, dar segurança e assim por diante.

Naquele dia, Clara propôs: “E se fizéssemos uma espécie de bazar entre nós e trocássemos as roupas? Temos mais ou menos a mesma idade, corpo, gosto”. A ideia flutuou, cada uma pensou, pensou, e foi aderindo, já pensando no que poderia levar. Os dias passaram, começaram os telefonemas: quando vai ser? E a coisa tomou corpo até que Anna Candida determinou: “No próximo domingo! Podem começar a separar as roupas”.

Durante a semana soube que Clara e Helena, mãe e filha despejaram roupas e roupas dos armários. Esta não, esta mais ou menos, esta claro que não, esta sim, esta vou pensar, esta sim, esta não, será que esta? Foi um tal de tirar e recolocar coisas no lugar durante dias e dias, mas as descartáveis emergiram, foram repensadas, ponderadas, veio a decisão final.

Sei como é. Tenho uma capa Burberry, comprada em Londres em 1969, que me consumiu todas as reservas, mas era um sonho, eu via nas revistas, nos filmes, aquele interior xadrez, para mim sinal de elegância, durabilidade. Pelo pouco que usei, com medo de gastar, de perder, esquecer em algum lugar, ela dura até hoje, perfeita. Não a troco por nada neste mundo, não empresto nem a meus filhos. Tolice, talvez. TOC. Vaidade. Dia desses penso em consultar o Caligaris, pode ser que ele explique. E saibam que jamais fiz esse tipo de consulta em mesa de bar, restaurante, festa, como muita gente que se acha esperta. Ligo, marco, pago. 

Então, o tal bazar amigo aconteceu. E foi um domingo diferente, sem futebol, sem estresse, sem a tevê ligada em Eliana ou Faro, um dia animado. Seis mulheres. Anna Candida e a filha Amanda, Clara e Helena, Dora e Magaly. Na casa de Clara e Helena, estava uma arara cheia de roupas em desuso. Depois do almoço, ali pelas três e meia, começaram a chegar as outras com malas ou sacolas. Juntaram-se em um dos quartos e nós, os maridos, podíamos ouvir as gargalhadas, os risos, as exclamações, as “brigas”. Este é meu, você já pegou aquele. E o vinho Rosé correu, era um domingo quente. 

Os homens ficaram a conversar, excluídos. Estávamos proibidos de ir lá, por motivos óbvios, uma vez que o provador era o próprio quarto fechado, ali elas se despiam e se vestiam e se olhavam no espelho e buscavam a aprovação das outras e concorriam, se divertiam. Veio-me à cabeça um dos primeiros choques culturais de minha vida. A viagem a Londres, em 1969 enviado pela revista Claudia. A Swinging London. King’s Road, Carnaby Street, Soho, Biba, Pink Floyd, David Bowie, o filme Blow-Up, ácido, pôsteres de Guevara, Beatles e Martin Luther King. Mary Quant e a minissaia. Efervescência e liberação. Em Carnaby Street, eu entrava em cada loja, bar, butique, tudo era diferente, colorido, espantoso. Na maior parte das lojas, não havia provadores. Jovens apanhavam as roupas, ficavam nuas, mas nuas em pelo, indiferentes ao público que, por sua vez, se mostrava indiferente a elas. Eu, entre assustado e fascinado, percebi que uma nova época estava mesmo se iniciando. Meu Deus! Damares enlouqueceria.

Essas coisas me vinham à cabeça. Três horas depois as mulheres se deram por satisfeitas com os “negócios” feitos, felizes com os escambos, as conversas e como era domingo, tudo terminou em pizza e garrafas de vinho. Então, se viu que um lindo vestido preto, que tinha sido de Anna Candida, passara para Helena muitos anos atrás e, como é roupa boa, agora estava com Amanda. Pensei: dá para escrever um filme, uma noveleta, um conto. A história de cada uma e de todas e de uma época contada por meio de um vestido preto. 

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