Marcos Camargo/Divulgação
Marcos Camargo/Divulgação

A Guerra para ''agarrar vizinhas solteironas

Rubens Xavier assina comédia com vocação 'popular'

Crítica: Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

13 de outubro de 2010 | 00h00

Existem "problemas", como os críticos não se cansam de dizer, sobre certos filmes brasileiros - o próprio Tropa de Elite 2, de José Padilha, que já se constituiu num fenômeno de bilheteria e, com 1,305 milhão de espectadores, em apenas quatro dias (de sexta, 8, a segunda-feira, 11), ameaça passar como um rolo compressor sobre outro fenômeno, o do espiritismo, que lotou as salas de Nosso Lar, de Wagner de Assis. Os problemas, no caso, referem-se a A Guerra dos Vizinhos, comédia popular de Rubens Xavier ainda em cartaz nos cinemas.

Vamos logo a eles. Há uma ingenuidade de conceito na deflagração da narrativa em flash-back e o diretor não termina sua história direito, mas apesar disso, e não é pouca coisa, há uma graça que vale resgatar no longa em cartaz, em apenas um horário, no Belas Artes. Esta graça pode estar no elenco, ou então nos elementos de chanchada com que Rubens Xavier recheia seu relato, mas a verdade é que, sem o marketing de Tropa 2, A Guerra dos Vizinhos tinha meia sala cheia no domingo, a maioria formada por espectadores maduros, que pareciam se divertir enormemente.

Talvez a força, mesmo relativa, do filme venha da recriação dessa São Paulo de décadas atrás, quando até as brigas entre vizinhos não se revestiam do caráter selvagem da violência de hoje - muito menos do isolamento brutal que caracteriza a megalópole e que faz com que os habitantes de prédios nem saibam mais quem são seus vizinhos. É curiosa essa ideia do vizinho. Uma das atrações anunciadas da 34.ª Mostra, que começa na semana que vem, será justamente o resgate de um cinema brasileiro mais popular, como A Guerra de Rubens Xavier pretende ser.

A Mostra anuncia sessões de O Corintiano, com Mazzaropi, e Ainda Agarro Esta Vizinha, de Pedro Carlos Rovai, no limite da comédia de costumes e da pornochanchada, com a sexy Adriana Prieto como objeto de desejo dos condôminos do prédio que habita, supostamente em Copacabana (o filme foi feito em estúdio, na Cinédia). O Corintiano - a Fiel, o humor de Mazza - é paulista até à medula, mas A Vizinha, como A Guerra, não se limita a um fenômeno local. Esse universo suburbano que Rubens Xavier filma - a roda de samba, o desejo reprimido, a libido solta, o desejo de ascensão - também se faz presente nas novelas de Glória Perez e até se poderia objetar, não sem, certa razão, que A Guerra daria um bom especial de TV (uma sitcom?)

O filme é sobre família que se muda para casa nova e ela é vizinha à de três solteironas que entram em guerra com os recém-chegados. Briga-se por tudo. A água do banho, que é compartilhada; a oficina mecânica que o pai instala em bairro residencial; a receita de compota de que a mãe se apropria para montar seu negócio. E há, claro, a doméstica que sonha com o garanhão que veio colaborar na oficina (e os sonhos são divididos com a mais nova das irmãs encalhadas), tudo visto pelos olhos do menino - o adulto que conta a história. Eva Wilma encabeça o elenco, com Karin Rodrigues, Toni Correia, Ângela Dip, Fabíula Nascimento etc. Ela se diverte no papel de velha irascível, o público diverte-se, também. É a estreia de Rubens Xavier, que tem colaborado com João Batista de Andrade.

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