A guerra dos streamings

Orçamento de US$ 10 milhões por episódio era considerado muito alto; agora não mais

Marcelo Rubes Paiva, O Estado de S. Paulo

14 de dezembro de 2019 | 03h00

O ano de 2019 será lembrado como o Pearl Harbor da TV americana, que reverbera em todo planeta; lembrando que o ataque surpresa à base americana no Havaí, de que poucos tinham ouvido falar, deu na adesão dos titubeantes Estados Unidos à Segunda Guerra, alterando o seu curso e o mundo em que vivemos.

Com tamanho recurso financeiro das empresas mais ricas do mundo (Amazon, Apple, Google&YouTube, ATT&HBO MAX, Disney), os orçamentos explodem. Episódios de séries, não temporadas, a preço de longas, viram norma.

A Disney, gigante do mercado de entretenimento, teve dez milhões de assinaturas no seu primeiro dia de streaming. Gasta uma nota para recuperar os assinantes que foram atrás das suas próprias séries e filmes acomodados por anos no catálogo da Netflix, um negócio da China que deixou todo mundo babando. The Mandalorian, spin-off de Star Wars, custou US$ 15 milhões/episódio. 

A Apple lançou a Apple TV+, anunciando a série mais cara da história, The Morning Show (USS 17 milhões/episódio)- drama que explora o desgaste da própria televisão e as consequências atuais do MeToo nas relações de trabalho. E que, de cara mesmo, o cachê dos envolvidos, pois quase não tem efeitos de pós-produção. Ainda botou banca e anunciou que baterá seu próprio recorde de série mais cara com Masters of the Air (US$ 250 milhões por menos de dez episódios). 

O comprador de um produto Apple ganha assinatura da Apple TV +. Alguns calculam que, com a operação casada, o streaming consiga em pouco tempo mais de 100 milhões de assinantes até o final de 2020. A lembrar que a Netflix corre na frente, agora com uma enorme e relevante produção própria (a mais cara é The Crown, US$ 12 milhões/episódio) e produções cinematográficas premiadas como A Balada de Buster Scruggs, dos irmãos Coen, Dolemite is My Name, que ressuscitou a carreira de Eddie Murphy, o incrível O Irlandês, de Scorsese, o espetacular filme História de um Casamento, de Noah Baumbach, e Dois Papas, do nosso aclamado Fernando Meirelles.

Netlfix começa o ano de 2020 com mais de 160 milhões de assinaturas. O fim da parceria com a Disney poderia azedar o negócio. A diáspora será menor do que a esperada. A CNBC reportou que “apenas” 28% dos assinantes da Netflix migrarão para a Disney +

A guerra de trincheiras está apenas começando. A HBO Max adquiriu com exclusividade séries da gigante europeia BBC, roubando uma parceira antiga da AMC Network, que corre por fora se associando aos independentes Sundance Now, Britbox, WeTV, IFC, Urban Movie Channel, em busca de um público mais seleto. 

Não se esqueça. A AMC Network, há mais 30 anos no mercado, foi corajosa e renovou a televisão a partir dos anos 2000 com Mad Men e Breaking Bad e é responsável por séries como Better Call Saul, Killing Eve, Rectify, The Staircase, Orphan Black, Doctor Who. Projeta dois milhões de assinaturas em 2020. 

A Peacock será lançada em abril de 2020. Vai operar com anúncios, uma novidade, e o acervo NBC Universal, que inclui The Office, Parks and Recreation, Saturday Night Live, 30 Rock, Downton Abbey.

Por fora correm a Globo Play, anunciando projetos próprios, Looke, parceira da brasileira SP Cine, focada em cinema brasileiro, À La Carte Belas-Artes, do veterano cineclubista André Sturm, Telecine, com mais de 2 mil filmes, Mubi, só de clássicos, Spamflix, só de filmes geeky, nonsense, cult, terror, comédia de vários países do mundo, stremings da Argentina, e por aí vai.

A guerra foi declarada e é, na verdade, mais um passo na evolução da televisão. A revista Time decretou: “Todas essas empresas estão pensando longe. Em 2018, um estudo constatou que o interesse pelo Prime Video era o fator motivador de apenas 11% dos assinantes do Amazon Prime - o que a empresa bolou como uma maneira de incentivar a fidelidade do cliente mais do que uma fonte de receita. A Disney+, cuja contagem inicial de assinantes incluiu usuários que cancelaram no final da sua semana de teste gratuito, espera ter em 2024 entre 60 a 90 milhões de assinantes.”

Para o diretor da A+ E Studios, Barry Jossen, no momento em que existem 31.600 programas de televisão, é realmente difícil entrar no mercado com tudo, e um começo é abrir a carteira: “Mais do que nunca, todos esses compradores e prestadores de serviço estão se programando para o seu público; eles tentam chamar a atenção e se diferenciar do que todo mundo tem.”

O que as grandes querem para a televisão é a qualidade técnica do cinema. Warren Littlefield, produtor-executivo de The Handmaid's Tale e Fargo, disse para a Time: "Penso que cada vez mais à medida que os preços estejam subindo, você ouve o termo 'insustentável'. Acho que serviços diferentes, plataformas diferentes, determinarão o que é aceitável para eles. O orçamento de dez milhões de dólares por episódio costumava ser um número extraordinário. Embora seja muito dinheiro, não é mais considerado extraordinário.”

Judy Berman, analista da revista, pergunta o que a Streaming War, como ela chama, declarada pelos conglomerados mais poderosos, nos deixará de legado. Vai esmagar todo o resto? 

“Provavelmente, estaremos de volta a uma monocultura de programação única... Em vez de assistirmos a milhares de coisas diferentes e compartilhar nossos favoritos no boca a boca, todos estaremos no Twitter polemizando contra a mesma dúzia de super-heróis, assim como fazemos agora com filmes. Vai demorar um pouco até que a batalha da Disney, Netflix, Amazon, AT&T, NBCUniversal e Apple derrame seu primeiro sangue corporativo. Enquanto isso, seria de boa se aqueles que apreciam um cenário diversificado da televisão atual considerassem se ainda é possível impedir que nossos programas favoritos se tornem os danos colaterais.” 

As empresas mais ricas do mundo querem conteúdo de entretenimento. Podem tudo. O que vem a seguir, o sistema bancário? Será um massacre.

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