Tim Hetherington/Divulgação
Tim Hetherington/Divulgação

A guerra de Restrepo

Documentário faz o público vivenciar a brutal experiência do Afeganistão

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

11 de março de 2011 | 00h00

No material de imprensa de Restrepo, seu forte documentário que estreia hoje, a dupla de diretores Tim Hetherington e Sebastian Junger propõe o que não deixa de ser uma carta de intenções. "A guerra no Afeganistão se tornou altamente politizada, mas os soldados raramente participam desse debate. Nossa intenção era captar a experiência do combate, do tédio e do medo através dos olhos dos próprios soldados. Suas vidas foram nossas vidas. Nós não sentamos com as famílias deles, não entrevistamos os afegãos, não exploramos os debates geopolíticos. Os soldados estão vivendo, lutando e morrendo em postos remotos e em condições que poucos americanos que ficaram nos EUA podem imaginar. Suas experiências são importantes para entender, independentemente, de crenças políticas. As crenças, no fundo, podem ser uma forma de evitar que a gente encare a realidade. E o que nos interessava era a realidade."

Restrepo foi um dos documentários indicados para o Oscar da categoria neste ano. Concorreu com Trabalho Interno, de Charles Ferguson, que recebeu a estatueta, e Lixo Extraordinário, de Lucy Walker, sobre o artista brasileiro Vik Muniz . O filme de Hetherington e Junger acompanha a implantação de um pelotão de soldados dos EUA no Vale Korengal, num lugar remoto do Afeganistão. O título vem do nome do posto em que convivem 15 homens. Homenageia um médico que morreu em combate.

Há uma importante tradição de documentários na história do cinema. Ela se acirrou nos últimos anos, com as polêmicas despertadas pela obra de documentaristas provocadores como Michael Moore e, no Brasil, pelos experimentos de Eduardo Coutinho e João Moreira Salles. Mas você pode recuar até os anos 1920 e 30, quando Robert Flaherty filmou a saga de Nanouk, o esquimó, ou a tragédia do homem de Aran, enfrentando a natureza inóspita. O próprio Flaherty, nos anos 1950, quis filmar a história da exploração do petróleo. Como as empresas não o autorizavam, ele teceu um dos mais belos poemas do cinema, Louisiana Story, focalizando a questão do petróleo pelos olhos de um menino.

Nada mais distante da experiência brutal de Restrepo. As câmeras na mão buscam reproduzir para o espectador a sensação de instabilidade, física e emocional, em que vivem esses homens. A própria delimitação do espaço - o posto, no vale, é o cenário único - produz uma sensação de claustrofobia, embora não tão radical quanto a que caracterizava A Fera da Guerra, ficção de Kevin Reynolds, também ambientada no Afeganistão, durante a guerra de George Bush (o pai). Desde 2007, Hetherington e Junger têm estado em contato com os integrantes do 2.º Pelotão. No total, eles fizeram dez viagens à região, fazendo coberturas para a revista Vanity Fair e a rede ABC News. Junger ainda não esgotou sua experiência com o 2.º Pelotão. Ele prepara um livro, War, que será lançado nos EUA em maio, pela editora Twelve.

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