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A guerra de mentira

No começo do ano de 1932 na Alemanha, era avassaladora a sensação de estar vivendo algum tipo de crise final,

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

23 de janeiro de 2020 | 03h00

No começo do ano de 1932 na Alemanha, no ocaso da República Social-Democrata de Weimar, era avassaladora a sensação de estar vivendo algum tipo de crise final, ou pelo menos uma crise destinada a uma solução cataclísmica. A eleição presidencial de maio daquele ano já eliminara o último dos governos de Weimar e dado lugar a uma quadrilha de aristocratas reacionários que governavam por decreto. E que, para atrair Hitler, revogaram uma recente proibição do uso de uniforme pelas tropas de choque nazistas. Paradas deliberadamente provocadoras passaram a ser parte do panorama das ruas. Todos os dias havia batalhas entre milícias uniformizadas. Somente em julho morreram 86 pessoas em entreveros entre nazistas e comunistas, e o número de feridos graves atingiu centenas. Nesse clima, Hitler, recém-nomeado chanceler, forçou uma eleição geral em julho, na qual os nazistas obtiveram quase 14 milhões de votos e 230 cadeiras no Reichstag, os comunistas mais de 5 milhões de votos, ou 89 cadeiras no parlamento. E antes que um leitor ou uma leitora mais atentos identifiquem o texto acima, me apresso a dizer que ele não é meu, é tirado do livro Tempos Interessantes, uma autobiografia do historiador marxista Eric Hobsbawn, morto em 2017. A música de fundo é do Wagner (Tiso).

Hobsbawn passou a infância e boa parte da adolescência em Berlim e acompanhou de perto - ou da distância segura para um adolescente - as sucessivas crises que levaram Hitler ao poder. O crescimento dos comunistas nas eleições de julho enfatizou uma das razões para o sucesso dos nazistas na Alemanha e sua aceitação no resto da Europa, onde contavam com simpatizantes até na família real inglesa. A reação à política predatória de Hitler, mesmo quando não havia mais dúvida sobre suas más intenções, demorou porque, bem ou mal, a poderosa nova Alemanha era um baluarte contra o mal maior que ameaçava o Ocidente, o comunismo. Chegou-se a inventar uma expressão para descrever os primeiros avanços de Hitler fora das fronteiras do Reich, sem oposição: “phoney war” em inglês, “drôle de guerre” em francês, ou “Sitzkrieg” (guerra sentada) em alemão. 

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