A guerra com que nos enrolam

Com um certo embaraço para quem é tido, generosa e erroneamente, como conhecedor do que agora ouço chamarem de "Brasil profundo", não entendo praticamente nada de jogo do bicho. É uma ignorância vergonhosa e até mesmo, em algumas ocasiões, fator de exclusão social, porque fico inteiramente por fora de várias conversas. Sei que 24 é veado, porque sou do tempo em que os estudantes cujos primeiros nomes começavam com letras do meio do alfabeto corriam o risco, a depender do tamanho das turmas, de pegar o número 24 e passar o ano inteiro ouvindo piadinhas na hora da chamada. Em Sergipe, saía porrada. E também sei que 34, aliás número de minha cadeira na Academia, é duas cobras, porque sonhei com duas colegas de faculdade, contei a elas e elas, para quem eu de vez em quando fazia um joguinho, pois que eram tempos em que as moças não podiam expor-se a certos ambientes, me aconselharam entre risos que eu jogasse em duas cobras. Dito e feito, ganhei na dezena, comemoramos na cantina, com três coca-colas e três pastéis.

O Estado de S.Paulo

18 de março de 2012 | 03h10

Depois disso, nunca mais joguei. Aliás, minto. Quando eu morava na Bahia, passava temporadas no Rio. Durante uma dessas, no restaurante em que me enturmei, éramos visitados desde as 11 da manhã, pela tarde adentro, por um simpático e sorridente cambista - ou pelo menos acho que era o nome que se dava - que levava as apostas à casa de jogo do bicho (de novo, não sei se é este o nome usado para a porta do estabelecimento onde se fazia a fezinha diretamente; na Bahia era "tenda do bicho"). De vez em quando eu jogava e uma vez, assessorado por um companheiro de mesa, cerquei milhar, dezena e centena, do primeiro ao quinto, numa rodada que chamavam de Paratodos e em outra, baseada num sorteio diferente. Não cravei nada, minha história de acertos ficou naquela dezeninha.

Acabo de confessar que já fui contraventor, não me regenerei para o bom convívio social e, com revoltante cinismo, não manifesto arrependimento algum. Na verdade, vocês devem ter percebido, pelo meu jeito de abordar o assunto, que sou um desses elementos capazes de reincidir a qualquer momento e admito que, se sonhar com o Ronaldinho do Flamengo, sou homem de, levado pelo permanente sorriso do craque, procurar o apontador aqui da esquina e descarregar uma graninha (coisa modesta, de escritor mesmo) no jacaré. Mas atirem a primeira pedra os que me reprovam. Um estrangeiro não entenderia nada do que falei acima, mas vocês todos, inclusive muitos dos que nunca jogaram, entenderam tudo. Ainda outros, também em grande número, estão capacitados a me ensinar muita coisa, ou tudo, sobre o jogo do bicho.

Não se trata de ser a favor de jogos de azar, trata-se de tentar acabar com essa hipocrisia em torno de um jogo tão arraigado em nossa cultura e até mesmo nossa língua. Estou convencido de que, se fosse feita uma pesquisa séria, o povo brasileiro, que joga no bicho de norte a sul, revelaria muito maior confiança no bicho que nos seus governantes, os quais se acostumou a ver como ladrões, privilegiados, mentirosos ou incompetentes. Tudo bem, é para proteger o cidadão, impedindo-o, por exemplo, de gastar o dinheiro do supermercado no jogo. Então vamos também protegê-lo de senas, megassenas, raspadinhas e não sei quantos mais jogos de azar legalizados, onde ele pode perfeitamente fazer a mesma coisa. Claro que é hipócrita quem torce um nariz santimonial para o jogo do bicho, mas joga na megassena, entra no bolo do futebol, curte um pôquer no fim de semana ou dá sua raspadinha.

Agora acaba de ser realizada uma brava operação no Rio de Janeiro, em que grandes bicheiros foram presos. Mais do mesmo filme, uma enorme farsa, uma encenação em que todos fingem acreditar que aquilo vai resolver alguma coisa. Não me manifesto nem contra a decisão judicial que deflagrou a operação, nem contra a polícia que a realizou. Tanto uma quanto outra obedeceram a lei, o que, embora longe de ser a regra entre nós, é pelo menos o cumprimento da lei. Mas essa lei, em toda a nossa história, tem sido ignorada, até agora é ignorada em muitos Estados e sempre dependeu da vontade de quem está no poder. Nunca houve nenhum problema público grave, causado pela tolerância ao jogo do bicho, ao contrário da intolerância.

A intolerância e a guerra ao bicho não se devem a nenhuma proteção do cidadão, que aparece aí somente para enfeitar e dar um aspecto cívico ao besteirol farisaico em que ela se fundamenta. O bicho, variando com as circunstâncias de tempo e lugar, precisa continuar ilegal. Desta forma, nas mãos de um governante sagaz, é até um instrumento político de grande serventia. Seria mais fácil, mais coerente, mais econômico, mais gerador de empregos, mais racional e mais pragmático que ele fosse legalizado. Isso, contudo, poderia ser o golpe de morte num setor não tão desprezível de nossa economia, e não estou sendo irônico. Sem a ilegalidade, para onde iriam as propinas e peitas variadas que, como se diz hoje, "fazem a diferença" para milhares e milhares de chefes de família em todo o Brasil, de policiais civis e militares a autoridades dos mais diversos níveis, além de vereadores e deputados? Pode-se desmontar toda essa complexa rede socioeconômica e suas ramificações, sem um sério impacto? E que dizer dos equipamentos usados nesse combate, seus fabricantes, distribuidores, vendedores e compradores comissionados? Precisamos lembrar que o Rio, assim como Cabul ou Bagdá, é um dos centros urbanos onde se usa rotineiramente equipamento de combate pesado e o mercado brasileiro nessa área fica cada vez mais suculento. O que dá pra rir dá pra chorar, a morte e a violência são um bom negócio para muitos. Assim como a guerra ao jogo ilegal - e nós, os otários de costume, acreditamos e pagamos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.