A grande viagem pop do Gorillaz

Damon Albarn é o cara. Em tudo o que ele põe a mão o resultado é no mínimo interessante, seja à frente do Blur, por trás da banda virtual Gorillaz, no supergrupo The Good, The Bad and The Queen ou numa simples participação no novo álbum do Massive Attack. Depois de longas férias, o Blur voltou à ativa em 2009. Especula-se que Albarn vá dirigir o show de abertura da Copa da África do Sul em junho, em parceria com o ilustrador James Hewlett, seu companheiro de Gorillaz.

Lauro Lisboa Garcia, O Estadao de S.Paulo

20 de março de 2010 | 00h00

Se restava dúvida sobre sua importância no pop contemporâneo, a terceira aventura do Gorillaz, Plastic Beach, é o atestado definitivo. O crítico Dave Everley, da revista britânica Q, pode ter exagerado um pouco ao afirmar que o CD é um conjunto das ideias mais avançadas do pop "deste e dos próximos anos" e "a pedra de toque do século 21", mas de cara a gente é obrigado a concordar com ele: Plastic Beach é desde já um dos grandes álbuns pop de 2010. E o melhor até agora.

Puxado pelo single Stylo, o CD, que saiu detonando e foi parar no topo da parada britânica no lançamento chega às lojas brasileiras, em edição nacional, no meio da próxima semana, mas já está por aí na web pra ser ouvido e/ou baixado. Sytlo junta a voz pungente de um ícone da soul music, Bobby Womack, e o hypado astro do hip hop Mos Def, que ganhou até um boneco próprio para figurar junto das outras quatro figuras animadas, 2D (Albarn), Murdoc Niccals, Noodle e Russel.

Na semana passada o cantor e compositor guiano Eddy Grant acusou o grupo de ter plagiado Time Warp, um de seus grandes êxitos dos anos 1980. A sonoridade daquela década, aliás, aparece reprocessada em outras faixas, como Glitter Freeze (com Mark E. Smith, de The Fall), que lembra Gary Glitter, e em outras que evocam Giorgio Moroder. A batida de Stylo realmente é a mesma de Time Warp, parece um sample desacelerado, mas isso não mancha a reputação da banda, que já deixou de ser "virtual".

Isso já faz parte da atitude extravagante do Gorillaz, tanto quanto a colagem de estilos - hip-hop, soul, synth pop oitentista, música árabe e sinfônica, baladas melancólicas, às vezes tudo numa mesma faixa -, que em Plastic Beach conta com convidados significativos. Além de Smith, Womack (que aparece também em Cloud of Unknowing) e Mos Def (que divide Sweepstakes com o Hypnotic Brass Ensemble), tem Lou Reed (Some Kind of Nature), De La Soul e Gruff Rhys (Superfast Jellyfish), Little Dragon (Empire Ants e To Binge), além de reunir na faixa-título Mick Jones e Paul Simonon, pela primeira vez desde o fim do Clash.

A vinheta de abertura é orquestral (com a sinfonia ViVAé assim mesmo: sinfonia, com caixa baixa e ViVA) e vai se transformando em hip hop emendada na faixa seguinte, Welcome to the World of Plastic Beach, com Snoop Dogg e o Hypnotic Brass Ensemble. Até aí nada tão surpreendente - o Gorillaz já fez isso até melhor em Demon Days (2005) -, mas outras reviravoltas vão se sucedendo. A partir do meio do CD, como que se definindo como um lado B, vêm as canções mais harmônicas, entre elas as belas Empire Ants e To Binge, esta com ares de Velvet Underground. Melhor a cada audição, a ambiciosa e arrojada viagem sonora é cheia de boas descobertas no meio do caminho.

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