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Humberto Werneck
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A grande belorizontal

Com o risco de você achar que sou autoridade no assunto, vou encompridar a conversa da semana passada, quando falei de Suzana Castera – importação francesa que veio a ser a cafetina-mor de um Rio de Janeiro que dobrava o cabo do Império e entrava na República, figura a mais de um título pública, capaz de sensibilizar, malícia à parte, membros dos dois regimes e de todos os Poderes. Numa curva do papo, resvalei noutra grã empresária da luxúria, a espanhola Olímpia Vasques Garcia, que foi, pouco mais adiante, o equivalente de madame Castera na então adolescente capital de Minas. Merecedora, por certo, de mais que mera escala na conversa.

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

16 de junho de 2015 | 02h00

Ao contrário da Suzana, que antes de se estabelecer como dona de bordel balangou as pernocas em espetáculos fesceninos, a Olímpia começou por baixo, balangando a bolsinha numa cidade recém-tirada do nada, letárgica ao ponto de dar ao visitante Monteiro Lobato a impressão de que as raras criaturas nas ruas ali estavam no papel de transeuntes. 

A espanholinha de Segovia, conta Pedro Nava em Beira-mar, “chegara a Belo Horizonte mundana comum, exercera, juntara dinheiro, abrira sua pensão, amealhara mais, dera as primeiras danças no porão habitável do seu bordel na avenida Oiapoque, economizara furiosamente, investira abrindo o Éden Cabaré, fora logo de vento em popa”. 

Era ali que o jovem Nava, estudante de medicina, ia bebericar, dançar e, eventualmente, “ficar” – sim, o verbo já tinha, quase cem anos atrás, uma acepção sexual, significando dormir com mulher-dama. Foi no cabaré da Olímpia, ele conta, que veio a entender o tango argentino, “esse triângulo musical que comporta um ângulo macho, um ângulo fêmea e um ângulo bicha”.

Também seu cupincha Carlos Drummond andou por lá. Não se sabe se terá ficado, pois não se derramou em lembranças, como Nava – mas deixou pegadas num poema em que evoca o fuzuê da visita dos reis da Bélgica a Belo Horizonte, em 1920: “Jorra cerveja nos cabarés enfumaçados de cigarro. / Madame Olímpia, a respeitável, / faz a mais gorda féria do seu Éden”. 

Obeso, o caixa da cafetina lhe permitiu saltar para espaço ainda mais caprichado, o Palácio. Depois veio o Montanhês Dancing, e por décadas houve sempre um cabaré da Olímpia, “a quem sucessivas gerações de estudantes sempre ficaram a dever alguma coisa”, credita em suas memórias Paulo Pinheiro Chagas. Um daqueles moços de finanças curtas foi Cyro dos Anjos, futuro romancista de O Amanuense Belmiro, que recordará os ambientes onde “maridos malandros” e “solteirões empedernidos” iam “enganar seu tédio”. 

Os salões da espanhola – “grande belorizontal” que Nava descreve com detalhes de naturalista, sem esquecer “a expressão fria e cruel” e a “simplicidade quase sórdida” no vestir-se – gozavam de reputação federal. Em 1934, no Rio, o jornal satírico A Manha, de Aparício Torelly, o Barão de Itararé, transcreveu suposto telegrama em que ferroviários da Rede Mineira de Viação, em luta por aumento salarial, mostravam desalento ao constatarem a ineficácia de seu poderoso pistolão: “D. Olímpia Vasques Garcia”, choramingaram, “dama virtuosa cheia de predicados alabastrinos, real ornamento da sociedade, tem feito tudo em nosso benefício, sem resultado”.

A exemplo de Suzana Castera no Rio de Janeiro, ela dispunha de amizades e influência em altas cavalariças. Pouca importância fazia se escandalizava a família mineira ao desfilar de capota arriada em companhia das mais recentes aquisições de seu plantel, para anunciá-las à clientela. 

Em seu cabaré não se entrava sem o sinal verde do Antônio Grande, “mulatão muquiço”, reconstitui Nava, “alto de dois metros, trunfa, costeletas, peitorais deltóides estufados de rasgar a roupa, modos suaves, falas macias, olhos doces e queixada bestial”. Dentro, nada escapava ao olhar aquilino da cafetina, que tinha sempre à mão um argumento capaz de dissuadir os inconvenientes: um pé de meia contendo bola de bilhar, arma que em casos extremos a Olímpia fazia girar como devastadora maça medieval.

Na alta maturidade, a agressividade deu lugar à mansuetude. Diz Pedro Nava que ao morrer, em 1972, aos 84 anos, Olímpia Vasques Garcia se achava convertida em dama virtuosa, além de “udenista enragée”, capaz de legar sua fortuna à Prefeitura da cidade que lhe abrira os braços e as calçadas.

 

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