A grande arte em formato diminuto

Aberto Fechado exibe a potência da criação de pequenos objetos por artistas essenciais brasileiros

MARIA HIRSZMAN, O Estado de S.Paulo

19 Outubro 2012 | 03h01

Formatos grandiosos e vastos espaços não são uma exigência da grande arte. Muitas vezes é sob a forma de objetos pequenos, manipuláveis, um tanto banais e familiares como as caixas e os livros, que surgem as poéticas visuais mais contundentes, como as que se podem ver reunidas na mostra Aberto Fechado, que será inaugurada amanhã na Pinacoteca do Estado e que reúne obras de mais de 20 nomes essenciais da arte brasileira dos últimos 50 anos. Não se trata, no entanto, de uma retrospectiva ou coletânea. O crítico inglês Guy Brett, curador da exposição, prefere pensar essa mostra como uma espécie de ensaio, de encontro poético entre diferentes trabalhos potentes, que permite identificar de forma mais concreta um aspecto fascinante e paradoxal da arte nacional: o vivo interesse por organizar pensamentos plásticos em sistemas mais delineados e restritos, apesar do forte teor vanguardista da produção desse período e de nossa vocação continental e natureza exuberante.

Brett, que acompanha de perto a arte brasileira desde os anos 1960 e é um dos principais responsáveis pelo seu reconhecimento e difusão internacional, conta que a principal dificuldade foi ter de restringir as escolhas a pouco mais de 90 trabalhos, que abarcam uma ampla gama de questões. Trata-se de uma oportunidade única de revisitar obras antológicas, já bastante conhecidas do púbico e que pontuam toda a exposição, como as releituras dos Ninhos de Oiticica; os Trepantes, de Lygia Clark; a Caixa Brasil, de Lygia Pape, contendo mechas de cabelo das três raças fundadoras da população brasileira; a Urna Quente, de Antonio Manuel; os Camelôs, de Cildo Meireles; ou a obra Pulmão, de Jac Leirner.

Mas o grande atrativo da exposição, que a coloca certamente dentre os destaques do ano, são os pequenos garimpos de preciosidades raramente ou nunca vistas até hoje pelo púbico, a começar por Noite, uma pequena construção poética de Waltercio Caldas - um dos artistas brasileiros mais dedicados ao livro de arte e um dos mais presentes em Aberto Fechado - representando um trecho de estrada em meio à vastidão de uma noite estrelada dentro de uma grande caixa aberta. A obra, que abre a exposição, é de 1967 e nunca havia sido mostrada. O público também terá a oportunidade de conhecer trabalhos como o Livro do Tempo, de Lygia Pape, a Caixinha Sem-Fim, de Amelia Toledo, ou um conjunto de desenhos e obras em papel de Mira Schendel. Além do mais, não custa lembrar que Aberto Fechado é de certa forma um desdobramento da Bienal de São Paulo, já que foi pensada originalmente como parte do projeto apresentado por Suely Rolnik para a 30.ª edição do evento, atualmente em cartaz, e que acabou tendo sua curadoria conduzida por Luís Pérez-Oramas. Felizmente, a Pinacoteca do Estado abrigou a ideia e contribuiu ativamente para o desenvolvimento do projeto, algo raro em nossa época, marcada pelos pacotes de exposições já prontas.

De cabeça para baixo. Artur Lescher também inaugura amanhã a instalação Inabsência, no octógono da Pinacoteca. Mergulhando de cabeça na proposta da instituição, que há anos vem convidando artistas a criar obras específicas para o espaço central do museu, Lescher instalou aí uma grande cúpula invertida, recriada a partir dos desenhos originais do arquiteto Ramos de Azevedo - autor do projeto original -, num rico diálogo com a história e a arquitetura da instituição centenária. A peça como que se materializa pouco a pouco diante de nossos olhos, até transformar-se numa pontiaguda e gigantesca agulha de metal, como que perfurando seu espaço, forçando sua presença. "A cúpula sempre esteve aqui, apesar de não estar visível", afirma o artista, ressaltando o caráter ao mesmo tempo concreto e imaginário de sua obra. Ainda este mês, Lescher deve também lançar Rios, um alentado livro que reúne trabalhos seus que se debruçam sobre questões como fluxo, continuidade e repetição.

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