A geração invisível

Se nada for feito pelas TVs, uma geração de músicos vai virar pó - quem diz é o produtor Solano Ribeiro

JULIO MARIA, O Estado de S.Paulo

31 de março de 2012 | 03h09

A grande bolha ameaçou explodir de 1964 para 1965, quando cresceu a ponto de ficar insustentável. Era gente boa demais fazendo música fora dos padrões ao mesmo tempo, um ao lado do outro. Gilberto Gil, Caetano Veloso, Edu Lobo, Chico Buarque, Elis Regina, Baden Powell. Antes que a tal bolha estourasse e virasse água, dois homens agiram rapidamente. Solano Ribeiro, ainda na TV Excelsior, criou os grandes festivais. Paulinho Machado de Carvalho, dirigindo a TV Record, os absorveu e inventou os programas musicais de auditório com artistas no comando. A música movia o País, dando recordes de audiência às TVs e vendendo LPs como água.

Quarenta e oito anos depois, o hoje apresentador do programa Solano Ribeiro e a Nova Música do Brasil, na rádio Cultura Brasil, quer fazer de novo. Seu projeto, ainda sem patrocínio, pretende levar a música de volta às TVs não só por acreditar no potencial de uma geração 'escondida', mas também por achar que daí sai dinheiro. Seu primeiro alvo está sendo a própria TV Cultura, por acreditar que seria o melhor meio para passar tal mensagem. Nas crenças de Solano surge um alerta: se a TV ignorar os músicos que não param de surgir um após o outro, sobretudo na internet, teremos uma leva de artistas invisíveis.

Qual foi a importância da TV naqueles anos 60?

Se eu não tivesse ido para a televisão com os festivais, a grande eclosão da MPB não teria existido. A televisão possibilitou esse movimento e se beneficiou dele. Foi uma via de mão dupla.

Mas haveria hoje uma ebulição artística a ser catalisada pelas emissoras de TV?

Sim, existe, e é preciso um catalisador. Naqueles anos, essa função foi dos festivais e depois de programas como o Fino da Bossa e o Jovem Guarda. A Record abriu um leque que transformou completamente o panorama da TV e da música no País. A emissora foi para o primeiro lugar de audiência com o festival de 1967. A noite da final teve 97% de índice. As cidades nas quais o festival era transmitido ficavam às moscas.

Supomos que as TVs passem

a apostar em música. Quem

seriam esses músicos?

Existe uma nova geração fantástica. Ok, você pode dizer que não há um Caetano, um Chico. Mas veja, não podemos comparar os novos com o Caetano de agora, temos que compará-los àquele que mal conseguia se apresentar de tão sem jeito que era, com o Chico Buarque do início, que era completamente destrambelhado. Thiago Petit, Pélico, Lula Queiroga são nomes modernos fortes, uma turma de músicos que funciona como uma grande confraria.

Que formato as TVs deveriam seguir? Programas como o American Idol tiveram seus picos, mas já caíram.

A base desses programas não era consistente. Eles tentavam impor ao artista o que ele deveria fazer. Eu via jovens dizendo que não era aquilo que gostariam de cantar. Minha ideia é trabalhar com os compositores. A gente precisa de novas músicas, de novos poetas, novas parcerias. É isso que vai mover a música brasileira, não um programa de calouros. Se isso não acontecer na televisão, vamos ver mais uma geração passar em brancas nuvens. Não vai acontecer nada além de alguns esporádicos lampejos que a internet propicia.

A internet não é o ambiente para o músico de hoje?

A internet não cria um foco, a TV sim. A web é dispersiva.

Qual a sua proposta?

Um formato que tem como objetivo colocar o compositor de uma forma competitiva. Tem que ser assim para ter audiência. A Record só deu audiência porque começou aquela batalha entre Chico e Vandré, entre A Banda e Disparada. Quero botar 12 músicas em competição na primeira noite. Entre outros desafios, três compositores serão selecionados e receberão um tema para fazer uma nova canção para a semana seguinte. Ao longo dos programas, os compositores vão ainda aparecer com uma criação sua cantada por um músico já consagrado. E farão uma parceria como letrista ou compositor também com outro músico consagrado. Com isso você está trabalhando a base, a composição.

De volta aos anos 60, muitos músicos da era dos festivais se deram bem com aquela história de canção de protesto, não?

O Geraldo Vandré é a maior contradição da música brasileira. Ele se considerava o Che Guevara brasileiro, o grande revolucionário, mas de uma forma poética, não de forma armada. A luta dele era com a palavra, com a qual se saiu muito bem. Agora, isso também fazia parte do repertório do Edu Lobo, do Carlos Lyra, do Vinícius de Moraes, em parte. Existia, sim, uma obra a partir de uma posição política, e existiam os oportunistas.

Quando fala de oportunistas você mexe em um tabu. Quem estuda a história da época

acredita que a música brasileira era cheia de heróis...

Olha, eu não posso citar o nome dos compositores oportunistas, mas eles existiram. Muitos se utilizaram disso e até entraram para o Partido Comunista achando que estar ali era uma boa. Que assim iriam conseguir emprego. Eu tinha feito parte do Partido Comunista. Quando fui conviver e participar das reuniões, achei aquilo de um ridículo inacreditável. Uma vez me convidaram para um encontro secreto em um porão. Aí veio um dirigente que, naquele momento, virava um Deus, com um respeito ao redor dele incrível. Aí o cara vai, faz aquela explicação toda, e quando termina as pessoas batem palmas estalando os dedos para não ser ouvidos pela repressão, uma encenação, uma bobagem, uma palhaçada.

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