Tiago Queiroz / AE
Tiago Queiroz / AE

A gente é feita para dançar

Jamiroquai, Air e Bajofondo abalaram a Chácara, com os sons das pistas

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

18 de outubro de 2010 | 00h00

A música dançante predominou na eclética programação do festival Natura Nós, anteontem na Chácara do Jóquei. Se "a gente é feito pra acabar", como cantou Marcelo Jeneci em sua pungente parceria com Zé Miguel Wisnik, a gente é feito mais pra dançar, como lembrou Gustavo Santaolalla no "alucinante" (palavra dele) show do Bajofondo, formado por argentinos e uruguaios, fundindo tango, tecno, milonga e hip-hop.

Antes a dupla francesa Air, estreando no Brasil, fez o show mais cool e elegante da noite (leia crítica abaixo), misturando texturas e alternando climas, entre o contemplativo e o dançante. Foi uma pequena sinfonia eletrônica, com excertos de psicodelia, rock, folk, trip-hop, eletrobossa e progressivo.

O Jamiroquai já entrou em cena com a plateia ganha, encerrando a noite com um grande baile de disco music. Em ótima forma vocal e física, dançando muito, o cantor Jay Kay (que não tirou o cocar da cabeça em nenhum momento) e os excelentes músicos que dão potência a suas canções não precisaram de muito esforço pra animar a pista. Com um roteiro recheado de hits poderosos - incluindo Virtual Insanity, Alright, When You Gonna Learn, Cosmic Girl, Love Foolosophy, Canned Heat e Deeper Underground - eles levantaram o público de 17 mil pessoas (havia 18 mil ingressos à venda).

Para os mais velhos, havia um clima meio nostálgico, das festinhas e clubes dos anos 90, mas a banda foi além disso. Com um trio de vocalistas negras, metais, percussão pesada e um baixo absurdo de bom, o som da banda está mais voltado para o funk/disco music ao estilo da incrível banda Chic. As boas novas canções do álbum Rock Dust Light Star, que sai em novembro, vão por esse caminho. Essa é a terceira vez que o Jamiroquai toca em São Paulo, e cada vez para um público maior. Jay Kay estava radiante com a receptividade do público e não era para menos.

Gary Lightbody, vocalista do Snow Patrol também demonstrou entusiasmo com os paulistanos, fez média com os fãs, mas não arriscou a tocar nenhuma nova canção. A banda se esforça pra parecer o U2 (os primeiros acordes do hit Open Your Eyes, que abriu o show, são provas incontestáveis), mas não passa de um sub-Coldplay, muito mais careta, derivativo e pegajoso. O único momento de maior "ousadia" foi quando o cantor Gary Lightbody e o guitarrista Nathan Connolly quase se beijaram na boca. Muita simpatia pra pouca música.

A infraestrutura do Natura Nós melhorou expressivamente em relação aos anos anteriores, tanto na qualidade de som, como no conforto para o público. Na área Premium, com revestimento do piso para evitar a concentração de lama. Dividir os shows em dois palcos foi outro aprimoramento. Os intervalos entre as atrações não passaram de 10 minutos e a pontualidade foi exemplar.

Como não há show na Chácara do Jóquei sem lama e chuva, o breve toró que caiu no início da noite afetou o palco onde Vanessa da Mata se apresentava e ela teve de interromper o show aos 40 minutos. Estava ok, mas das cantoras brasileiras quem abalou mesmo foi Karina Buhr, com uma ótima banda que incluía Edgar Scandurra, Fernando Catatau e Guizado. Grande guitarrista, Catatau devia dar um jeito de arrumar um vocalista para substituí-lo no Cidadão Instigado, que não foi tão feliz desta vez. Os Móveis Coloniais de Acaju, com a competência habitual, fizeram um estardalhaço. No extremo oposto, Céu, mais uma vez, sai com o troféu de show mais chato e arrastado de um festival, com aquelas canções vagarosas e aquele vocal linear.

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