A gênese expressionista de Lasar Segall

Mostra reúne obras do artista e de seus companheiros de arte produzidas na juventude, nos anos 20, na Alemanha

Maria Hirszman, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2010 | 00h00

Muito se fala sobre as origens expressionistas de Lasar Segall, mas raras são as oportunidades de ver sua produção de juventude, ainda na Alemanha, inserida em seu contexto de produção, lado a lado com as obras de companheiros que, como ele, aliavam experimentação plástica ao desejo de transformação radical nas primeiras décadas dos anos 20. A exposição Verdade, Fraternidade, Arte, organizada pelo museu paulistano que leva seu nome, supre essa lacuna e traz, hoje para convidados e a partir de amanhã para o público, um seleto conjunto de trabalhos realizados pelos artistas que, em 1919, criaram a Secessão de Dresden, seus interlocutores e influências mais marcantes. A mostra tem ainda o mérito de reunir num mesmo espaço obras de diferentes coleções brasileiras, públicas e privadas, dando-lhes uma possibilidade de leitura diferenciada e muitas vezes um destaque que não possuem de forma isolada em seus acervos de origem.

Dentre os 19 nomes contemplados pela exposição estão, além do próprio Segall, figuras como Otto Dix, George Grosz, Käthe Kollvitz, Marc Chagall, Paul Klee e Egon Schiele. É do pintor austríaco, que muito influenciou os jovens da Secessão de Dresden - como mostra um desenho de Segall realizado anos depois -, um dos grandes destaques da exposição. Trata-se de um surpreendente e perturbador autorretrato nu, feito sobre papel de embrulho em aquarela e carvão, que pertence a uma coleção particular de São Paulo e foi cedida em comodato à Associação dos Amigos do Museu Lasar Segall.

Com cerca de 50 obras e diversos documentos históricos, como catálogos e correspondências, a mostra tem como eixo central um álbum de gravuras que reúne trabalhos de seis membros do grupo de 1919 e que tinha por objetivo - como era usual no período - divulgar o seu trabalho e viabilizar a exibição e circulação da arte fora dos circuitos tradicionais. "Eles viviam em busca de renovação", explica a curadora Vera d"Horta, acrescentando que a gravura (e sobretudo a xilogravura) teve grande importância nesse projeto de reposição de ideais que motivava os jovens de Dresden, estimulados pelo exemplo da primeira geração de expressionistas. "A xilo é barata, portátil e de fácil circulação", sintetiza.

A mostra coloca lado a lado gravuras, aquarelas e pinturas, como uma forma de reiterar esse caráter multifacetário, experimental e engajado, do período. Convivem, por exemplo, no mesmo espaço a célebre tela Eternos Caminhantes, de Segall (que participou da mostra da Arte Degenerada organizada em 1937 por Hitler em e retornou ao Brasil apenas após a morte do artista); uma delicada paisagem de Soutine e a terrível aquarela de Grosz, prenúncio do terror nazista, intitulada A Bestialidade Avança.

É possível, portanto, encontrar nas obras da exposição as mais diferentes vertentes associadas ao expressionismo, como a expressão distorcida e sintética do corpo humano, a denúncia das mazelas sociais numa Alemanha que vinha do desastre da 1.ª Guerra e uma busca pelo natural, pelas culturas não contaminadas pela decadência burguesa do velho mundo. Como diz Vera d"Horta, relembrando o filósofo Ernst Bloch, "o expressionismo não é um movimento, é uma explosão do eu", da subjetividade e do desejo de mudança.

VERDADE, FRATERNIDADE, ARTE

Museu Lasar Segall. R. Berta, 111, 5574-7322. 14h/ 19h (dom. 14h/ 18h; fecha 2ª). Até 20/2

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