A gênese da arte de dançar, em Palmas

A gênese da arte de dançar, em Palmas

Capital do Tocantins encena na palma dos olhos, uma homenagem à cidade

Crítica: Helena Katz, O Estadao de S.Paulo

24 de março de 2010 | 00h00

Palmas, capital do Estado de Tocantins, fundada em 20 de maio de 1989, foi planejada por uma dupla de arquitetos (Luiz Fernando Cruvinel Teixeira e Walfredo Antunes de Oliveira Filho) à feição de Brasília, com ruas que se continuam, se cruzam e se ligam por rotatórias. No ano passado, de uma só vez, três hipermercados inauguraram filiais lá, sinalizando confiança na sua expansão.

Foi apostando nisso que os bailarinos João Vicente e Carolina Galgane mudaram-se para Palmas em março de 2009. Prestaram concurso na Secretaria Municipal da Educação e passaram a trabalhar no Projeto Salas Integradas. Encontraram Brenno Jadvas e Eliene Rodrigues, mais ligados ao teatro, que, como eles, também haviam acabado de se mudar para Palmas. Das conversas entre os quatro começou a se delinear o que acabou se transformando no primeiro espetáculo deles: na palma dos olhos.

Conversa vai, conversa vem, perceberam que as impressões de ambos davam um roteiro de espetáculo. Decidiram escrever dois projetos, um para a Prêmio Klauss Vianna (dança) e outro para o Prêmio Miriam Muniz (teatro), ambos da Funarte. Mal acreditaram quando saiu o resultado: foram contemplados nos dois.

O primeiro a estrear, este mês, em Palmas, com os quatro em cena, foi o de dança, na palma dos olhos, primeira experiência de João como coreógrafo e diretor. João Vicente começou em dança com Roosevelt Pimenta, em Natal, onde nasceu. Dançou na cia. de Diana Fontes e, de lá, seguiu para Salvador, para o Balé Teatro Castro Alves (1997/1998). Entrou na Quasar (1999/2001), na qual colaborou na criação de Coreografia para Ouvir.

Cerca de dois anos depois conseguiu dançar com o Grupo Corpo (2004/2008), e lá acompanhou a produção de Onkotô, Breu e Ímã (que não chegou a estrear). Carolina vem de Belo Horizonte, onde se formou no curso profissionalizante do Palácio das Artes (Cefar). Tornou-se estagiária da companhia oficial, participou da montagem de Coreografia de Cordel e, em 2004, entrou para a companhia de Mário Nascimento. De lá, seguiu para outra, o Primeiro Ato, com quem dançou Mundo Perfumado.

Contato. Pois bem. Como se começa um trabalho de dança num lugar como Palmas, onde o contato com a dança profissional é rarefeito, praticamente restringindo-se à programação do Palco Giratório, um circuito que o Sesc realiza pelo País? Há muitas dificuldades a enfrentar, desde as roupas que não são encontradas para o figurino, o linóleo que demora a chegar, o preço absurdo das passagens aéreas que permitem/impedem uma circulação, até a necessidade de atrair interessados em fazer da dança um campo profissional, ainda inexistente: figurinistas, cenógrafos, iluminadores, divulgadores, produtores, videoartistas, músicos, etc.

Começar esse tipo de percurso é difícil e não diz respeito ao que acontece só em Palmas, mas, sim, à maioria das cidades brasileiras. Vem justamente daí a relevância do que João Vicente e Carolina Galgane estão realizando. Escolheram fazer das primeiras impressões sobre a cidade o assunto de seu espetáculo. Falam dos endereços duplos (um novo, outro velho) que surpreendem quem chega; dos tons magenta do pôr-do-sol (no figurino, que contou com a assessoria de Norma Brugger, e também na iluminação, de Lúcia Miranda); da presença ostensiva da religiosidade ("da minha casa até o espaço onde ensaiamos, conto 18 igrejas", comenta João); do traçado urbano só de retas e rotatórias, com o vídeo de Caio Brottas; da música que se ouve pela cidade (Banda Calypso, melody, créu...)

A obra tem comunicação imediata com quem reconhece as citações. Cada cena se organiza em torno de referências explícitas, deixando clara a preocupação em conseguir fazer uma dança que interesse à plateia local. O resultado, lido em relação ao contexto que o produz, aponta para uma questão maior: qual é a estratégia para construir um percurso profissional para a dança onde ele ainda não existe e as condições são adversas?

Os artistas envolvidos na criação de na palma dos olhos produziram a primeira resposta, cuidando bem do acabamento - tentativa de já firmar um patamar de qualidade para o seu produto que, evidentemente, ainda carrega as fragilidades típicas de qualquer início de percurso. A estrutura dramatúrgica ainda pede atenção, enquanto a movimentação empregada sugere um caminho mais amadurecido.

Mas o mais importante nessa obra é a sua existência, por representar o que representa: a possibilidade da dança proliferar na diversidade e vir a se transformar em uma manifestação cultural fortemente apoiada pelas populações com as quais convive.

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