A GAROTA SEM MEDO DE OUSAR Rooney Mara ATRIZ Entrevista

Estrela de Millenium fala do difícil papel no filme de David Fincher

LUIZ CARLOS MERTEN / LONDRES, O Estado de S.Paulo

22 de janeiro de 2012 | 03h09

Rooney Mara entra na sala do hotel de luxo - o Claridge - para o encontro com o repórter do Estado. É bela, miúda, delicada. Nem parece a punk tatuada da adaptação que David Fincher fez da série de livros de Stieg Larsson. Millenium - Os Homens Que Não Amavam as Mulheres é o primeiro do que também poderá vir a ser uma série de filmes. Daniel Craig faz o protagonista. Tem gente que jura que o filme seria ainda melhor com Viggo Mortensen no papel. Tem gente que também acha Noomi Rapace, que fez a versão sueca, melhor do que Rooney. Noomi, vale lembrar, interpreta a cigana que acompanha Robert Downey Jr. e Jude Law em Sherlock Holmes - O Jogo de Sombras, em exibição nos cinemas. Rooney dá de ombros. "Não se pode contentar a todo mundo. Se tivesse pensado nas comparações, teria travado e não estaria no filme. O importante é que David (Fincher) me quis e eu sirvo para o que ele pretendia fazer."

Duas coisas se impõem imediatamente em Millenium - a luz do filme, uma iluminação especial, que reflete o conflito entre o sagrado e o profano e que remete a obras tão distintas, mas tão próximas quanto A Árvore da Vida, de Terrence Malick, e Luz Silenciosa, de Carlos Reygadas; e justamente a presença de Rooney, com aquele final (que você vai conhecer na sexta-feira, dia 27). Rooney, só para lembrar, fazia a garota que dispensava Mark Zuckerberg em Rede Social, de David Fincher, condenando à solidão o homem (o bilionário) que criou a maior rede de comunicação da história. Os desfechos dos dois filmes também são distintos, mas muito próximos. Ambos colocam, segundo perspectivas diferenciadas, o conceito de confiança em xeque.

Foi difícil convencer Fincher de que você poderia fazer o papel?

Tenho a impressão de que, já na época de Rede Social, ao assumir que faria Millenium, ele me havia escolhido, mas houve todo um processo de seleção. A equipe de produção fez simulações para ver como eu ficaria com as tatuagens, os piercings e o cabelo moicano de Lisbeth. E nós conversamos muito, conversas intermináveis. David queria sentir minha compreensão da personagem.

E...?

Você quer saber como eu sentia Lisbeth? Ela é muito diferente de mim, nem falo da questão sexual, de sua ambivalência. Ela se revolta, vive numa concha. Sofre abuso, mas se vinga. É violenta, é boa no que faz (a atividade como investigadora). Creio que o roteiro (de Steve Zaillan) constrói muito bem sua relação com Mikael (Daniel Craig).

David Fincher diz que já teve muitos assassinos seriais em seus filmes, e tem aqui também. Mas Millenium, para ele, é sobre seu relacionamento com Daniel. Ele falava disso?

Sim, o tempo todo. Para David, o filme é sobre relacionamentos, ou sobre o relacionamento entre o personagem de Daniel, um homem casado, maduro, com essa garota que parece viver uma crise permanente. O roteiro constrói essa relação muito bem e David é preciso nos detalhes. Me parecem personagens bem consistentes.

Ela foge aos padrões da produção de Hollywood. Punk, bissexual, violenta. Não teve medo?

Você diz - de ficar estigmatizada? Sou muito jovem, se não assumir riscos vou me privar de participar de experiências importantes como foi a de desse filme. Não, não tive medo.

Como foi o processo?

Muito rápido. Uma semana depois de haver sido escolhida por David já estava montada numa motocicleta, em Estocolmo. Ele queria que eu me familiarizasse com a moto, com o tráfego. Lá andava eu, seguida pelo carro da produção. Foi um inverno particularmente rigoroso. Um dia, gravávamos uma cena e David interrompeu a filmagem porque havia um ruído estranho. Eram os dentes de Daniel, que tiritava de frio. A coisa ficou amena quando nos transferimos para o estúdio, em Los Angeles. No total, foi uma rodagem longa. Oito, nove meses.

Sem desconsiderar serial killer e relacionamentos, creio que o tema do filme é a confiança. Por isso acho o final tão bonito (e triste). E você?

Entendo o que você fala sobre confiança. Lisbeth sofre abuso. Vive desconfiada. Ela encontra em Mikael Blomkvist (Craig) o tipo de lealdade que nunca teve com ninguém, fosse homem ou mulher. Ele não a engana, e ela sabe disso. Acho o final muito maduro, alguma coisa entre a decepção e a aceitação. Mikael e Lisbeth são tão diferentes que seus caminhos nem deveriam ter-se cruzado. Mas cruzaram, e ambos são importantes um para o outro.

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