A galinha do Marlon Brando

O ator Emiliano Queiroz conta que frequentou, como ouvinte, o Actors Studio em Nova York e lá ouviu uma história sobre o mais conhecido ex-aluno do famoso curso de interpretação, Marlon Brando. Lhe contaram que certa vez o professor Lee Strasberg propôs ao grupo um exercício: todos deveriam se comportar como galinhas num galinheiro na iminência de um ataque nuclear. Os alunos passaram a se dedicar a diferentes graus de agitação, introjetando a provável reação das galinhas ao cataclismo anunciado. Todos menos um, Marlon Brando, que manteve-se tranquilo e sonolento sobre seu poleiro imaginário. No fim do exercício Strasberg pediu explicações a Brando, que respondeu: como uma galinha saberia que estava prestes a acontecer um ataque nuclear? Ele optara pelo realismo. Sua galinha desinformada não perderia a calma.

VERISSIMO, O Estado de S.Paulo

17 de novembro de 2013 | 02h22

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Você não tem a desculpa de ser uma galinha, da qual se espera que seja naturalmente mal informada. Essa sua calma não é realista. Você talvez só não tenha se dado conta ainda de que vive num pequeno planeta que se desloca no espaço em grande velocidade, sem direção aparente, girando sobre seu próprio eixo; e que você só é mantido vivo porque, por uma feliz casualidade, este planeta gira em torno de uma fornalha que se auto-consome e um dia explodirá na nossa cara, se um meteoro não nos liquidar antes, e é parte de um Universo que não se sabe como começou nem como vai terminar. Isso sem falar na situação do Oriente Médio, no terrorismo, nas epidemias, na má fase do Internacional e ... Pensando bem, a galinha do Marlon Brando se parece cada vez mais com um modelo de sanidade.

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Meu pai gostava de usar uma imagem, a do personagem de desenho animado que chega à beira do precipício e continua a caminhar sobre o vazio, até se dar conta de que o chão acabou e então cair no abismo. A lição para evitar a queda no abismo da angústia e da desesperança é fazer como a galinha do Marlon Brando, não se dar conta. Você terá chão enquanto acreditar no chão.

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E faça o que fizer, aconteça o que acontecer - não olhe para baixo!

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