A fúria irlandesa sai da sombra

Nem tudo deu certo no roteiro que Rory Gallagher escreveu para si sobre como ser grande. Irlandês de um tempo que só Van Morrison havia conseguido ganhar tamanho para ser visto além das fronteiras de seu país, Gallagher é um dos casos mais assombrosos da injustiça que se faz com blueseiros que, apenas por um acaso geográfico, não nasceram nos Estados Unidos.

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2010 | 00h00

Rory veio ao mundo como um furacão, conforme atesta o documentário em DVD duplo Ghost Blues - The Story of Rory Gallagher and The Beat Club Sessions (o segundo traz 16 músicas que ele tocou entre 1971 e 1972 no programa da TV alemã Beat Club Sessions). O material é lançado aqui pela ST2 Vídeo e Eagle Vision. Nada antes disso havia reunido com tanta precisão um material que dimensionasse o tamanho do guitarrista. The Edge, do U2, só falta cair de joelhos ao falar do homem que contribuiu para que ele virasse o que virou. "Nos primeiros materiais do U2 fica evidente a influência que recebi dele." Amigos, produtores, músicos e o irmão e empresário de Gallagher lembram do curto trajeto de 47 anos vividos pelo irlandês.

Bill Wyman, ex-baixista dos Rolling Stones, lembra de uma passagem pouco conhecida do fim dos anos 60, quando Gallagher quase entrou para a banda de Mick Jagger. Os testes chegaram a ser feitos depois da morte de Brian Jones (em 1969), e Gallagher se destacou dos outros. Jagger e Keith Richards pressentiram que dali não sairia boa coisa (o rapaz era demais para dividir uma banda com outras pessoas) e o vetaram.

Depois de grande barulho com a banda Taste entre 1965 e 1970, um power trio tão arrasador que chegou a se autodestruir em egos e conflitos, Gallagher se lançou em uma vitoriosa carreira solo a partir de 1971. No início dos anos 90, o corpo mandou a fatura dos anos de bebedeiras misturadas a medicamentos que das quais o músico desfrutava como se quisesse reproduzir na própria carne os versos que cantava. Uma cirurgia de transplante de fígado trouxe uma infecção hospitalar. E Rory Gallagher se foi.

BLUES ROCK

WINTERS

EDGAR & JOHNNY WINTER

ST2 Records

Preço médio: R$ 29

Irmãos Winter separados por um abismo

Quando todas as paredes pareciam derrubadas por quem fazia blues nos EUA até os anos 1950 - cegos, brancos, mulheres, índios, todos eram bem-vindos - eis que os negrões testemunham o nascimento de dois irmãos albinos loucos por escalas pentatônicas. Edgard e Johnny Winter eram os "fantasmas", algo inexplicável para os bluesmen da época que se perguntavam como poderia sair tanto vigor daqueles caras-pálidas. Os Winters cresceram e tomaram rumos diferentes. Edgar foi para o sax, Johnny cedeu à guitarra. Edgar ficou pop, Johnny ficou blues. Um disco duplo deixa o abismo maior. Edgard, no CD1, faz pop, rock, soul, funk, com propriedade e cheio de reverências ao gênero que ouvia em casa com o irmão, sem nunca assumi-lo com clareza. Canta mais que Johnny, mas toca menos. Johnny, dono do CD2, é um tornado. Sola de forma incansável com frases que não se repetem nunca, como se tirasse coelhos diferentes da cartola a cada compasso. Johnny B. Goode e Jumping Jack Flash estão lá. Esforçado e competente, Edgar não tem o brilho que faz de Johnny aqueles seres únicos capazes de tirar o fôlego. / J. MARIA

OUÇA TAMBÉM

TATTOO"D LADY

Artista: Rory Gallagher Álbum:

Tattoo (1973) Gravadora: Buddha

Preço: R$ 15 (www.amazon.com)

SOUL

CEE-LO GREEN

THE LADY KILLER

Warner

Preço: R$ 29,90

Matador, Cee-Lo faz o que quer com a voz de soulman {TEXT}

Na introdução do álbum The Lady Killer, Cee-Lo Green, a grande voz masculina do neo-soul desta década, diz que seu nome não é importante, mas o que ele faz. E ele faz o que quer: apesar de não estar acima da lei, quando se trata de mulheres de fino trato, o cantor de Crazy (Gnarls Barkley) tem "licença para matar". A suposta agressividade da brincadeira na vinheta é quebrada com a referência sonora aos temas de James Bond. Matadora mesmo é a canção que aparece na terceira faixa, quando o álbum ganha força. A faixa tem uma versão "limpa", intitulada Forget You, e a outra, original, Fuck You, situada no fim do CD, como bônus. É o primeiro single, grande hit do álbum e uma das melhores canções do ano. No One"s Gonna Love You foi cortada da versão brasileira, o que é lamentável. Mas Bodies e Satisfied compensam. Apesar de o álbum oscilar entre altos e baixos, com baladas, soul, funk e rhythm blues de bons antecedentes, Cee-Lo faz o que quer com a voz, mais poderosa do que algumas canções. / LAURO LISBOA GARCIA

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LET ME KNOW

Artista: Mayer Hawthorne Álbum: A Strange Arrangement Gravadora: Stones Throw Preço: desde US$ 6,76

POP

MICHAEL JACKSON

MICHAEL

Sony BMG

Preço: US$ 25

Michael maquiado e insosso para o consumo póstumo

O script mais comum de uma discussão sobre o Rei do Pop começa no Thriller e para no "mas que diabos aconteceu com ele?". Para quem ainda nutre a esperança descobrir, o disco Michael não serve de resposta. É, como se esperava, apenas mais um artefato redundante na saga de MJ (foto), mais um detalhe, como um a acusação, uma compra de valor exorbitante, ou o balançar de um neném na sacada, que nos leva novamente à velha pergunta. Michael traz participações de Akon, Lenny Kravitz e 50 Cent. É um disco composto, em grande parte, de baladas tricotadas para aquecer os fãs carentes. Dessas, a melhor é I Like the Way You Love Me, produção de Theron Feemster, bamba do pop negro contemporâneo que assina a maioria das faixas do disco e maquia bem a voz de Michael. As outras vão da paranoia ao lado dócil, infantil e consequentemente bizarro do cantor. O melhor é a rima pesada de 50 Cent em Monster, faixa que investiga a relação simbiótica de Michael Jackson com a mídia. / ROBERTO NASCIMENTO

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DIRTY DIANA

Artista: Michael Jackson

Álbum: Bad. Gravadora: Sony

Preço: R$ 15

INFANTIL

VANESSA

BORHAGIAN

TELARAÑA, Independente

PREÇO: R$ 20 (myspace.com/vanessaborhagian)

Canções para dobrar a língua dos pequenos

Dois mil e dez foi o ano em que a música para crianças resolveu amadurecer. Pato Fu, Pequeno Cidadão, Adriana Calcanhotto, gente que tratou com respeito ouvidos de tamanho P. Vanessa Borhagian entra nesse time com um trabalho quase todo em espanhol. Telaraña já foi lançado em Madri, onde também teve a maioria de suas faixas gravadas. Embora traga corais infantis em meio a vozes masculinas, é sutil, sensível, pequeno. O brilho maior em português é da faixa A Bailarina, de Vanessa e Leo Minax. Em espanhol, vale o Rock de La Lechuga. / J.MARIA

OUÇA TAMBÉM

CIRANDA BAILARINA

Artista: Adriana Partimpim

Álbum: Partimpim Vol. 2

Gravadora: SONY BMG Preço: R$ 28

JAZZ

MICHAEL BUBLÉ

CRAZY LOVE - HOLLYWOOD EDITION

Warner Music

Preço: R$ 45

Michael Bublé faz jazz para embalar massas

Esse disco duplo do canadense Bublé valeria só pela faixa Baby (You"ve got What It Takes), com Sharon Jones e seus Dap-Kings. Mas tem outros bons acertos, como a versão de Some Kind of Wonderful, sucesso de Carole King (também com os Dap-Kings). Bublé é um entertainer sem frescura, sem pose. Resvala às vezes para o excesso, para o estilo cassino prateado, como em Whatever It Takes (na qual divide vocais com Ron Sexsmith). Mas tem grande técnica, voz treinada, envolvida, e possibilita suave digressão em canções como Hold On (composição própria, como a maioria). / JOTABÊ MEDEIROS

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I GET A KICK OUT OF YOU

Artista: Jamie Cullum Álbum: Twenty Something (2009) Gravadora: Universal Preço: R$ 30

POP

DUFFY

ENDLESSLY

Universal

Preço: R$ 30

Lirismo country com vocação para a pista

A voz de Duffy transita entre o country e o dance pop com uma disposição açucarada, quase que um sopro de hélio, que, não fosse não fossem as confissões românticas da cantora, provocaria dor de barriga. Mas Duffy encarna a mulher magoada e arrependida de maneira sedutora. Implora o amor de seu namorado em Don"t Forsake Me. Procura-o, sem êxito, na faixa-título. Country vintage, dos anos 50 e 60, dá o tom da maioria das faixas. E quando Duffy leva a tristeza para a pista, faz um pop dançante melancólico e curioso, que melhora a cada ouvida.

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DRINKING AGAIN

Artista: Dinah Washington

Álbum: Best of Dinah Washington

Gravadora: Blue Note Preço: R$ 70

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