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A fresta sexual

Triunfou a castidade. Voltaram a usar a mortalha do amor: o pijama

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2021 | 03h00

Sei que o título deve ter assustado leitores e leitores que, como eu, possuem certa aversão ao vulgar e ao palavrão. A etiqueta que nomeia a crônica transmite excesso erótico. O que se segue passa por sexo, porém, evitarei colorir a bochecha dos pudicos com o rubor. Avancem, pois, tradicionalistas e envergonhados, arranharemos o sexto mandamento (o da castidade) sem frequentar lupanares.

Trarei à lembrança a narrativa de um grande amigo. Entre vinhos e confidências, ele abriu o verbo sobre seu casamento já celebradas as bodas de prata. Augusto era feliz com a esposa. Tiveram dois filhos que já estavam fora de casa. Um casal harmônico e de hábitos tranquilos. Rusgas leves, nenhuma tragédia no histórico do quarto de século compartilhado, e, para coroar a fluida felicidade, duas sogras com vida própria.

Após a primeira garrafa, Augusto dizia que, como todos nós, cinquentões, o contato físico do casal tinha sido intenso no primeiro ano, diminuído um pouco depois e, finalmente, entrado em uma prática que estava abaixo da Bruna Surfistinha e acima da Madre Teresa de Calcutá. Beijavam-se, trocavam carinhos, dormiam enlevados em uma conchinha (pelo menos no começo da noite) e tinham um prazer na intimidade e no carinho. O sexo, em si, nunca tinha desaparecido, apenas deixara de ser ator principal. Virara um contrarregra cioso e rápido que entra em cena, deixa um objeto, e desaparece nas coxias, ou nas coxas em trocadilho infame de tiozão. 

Mais duas taças e a história seguiu. Lícia tinha cedido a um impulso e comprara, pela internet, roupas sexy de garota pin-up. No sábado, de início constrangida, depois entusiasmada, vestiu a fantasia e chamou Augusto ao quarto. O marido adorou o upgrade de fantasia. O encontro durou 50% a mais do que o habitual. A ideia fora boa. Tinha sido criada uma fresta imaginativa. Os olhares do casal incluíam uma certa malícia. Ambos gostaram da novidade. As cinzas foram sopradas e uma chama nova se acendeu.

No sábado à tarde, momento oficioso de cumprir deveres conjugais, ambos se surpreenderam. Ele viera de motoqueiro completo; ela com uma curtíssima saia plissada, blusa branca justa e meia ¾. Os diálogos ficaram mais elaborados e o sexo foi o melhor que já tinham experimentado, superando o da lua de mel. 

A fresta virou porta pivotante. Em breve, surgiram algemas, roupas íntimas com detalhes interessantes, acessórios, aparelhos, coisas que ligavam na tomada, cremes e todo arsenal possível comprado em discretos sites com entrega camuflada. Quem visse as caixas, nunca imaginaria o conteúdo. A alegria de ambos era pública. Sexo bom com quem se ama é uma imersão em banheira de colágeno. Era uma primavera erótica e a chama virou labareda. Augusto confessou que chegava a ir almoçar em casa, quando sabia de uma nova caixa na portaria. Qual seria o limite?

Os meses seguintes alargaram todos os horizontes. A discreta fresta da primeira roupinha virou uma prática que consumia mais e mais energia. O final de semana foi absorvido inteiramente. As noites da semana eram atravessadas em experiências e começaram a perder o horário de despertar. Eram felizes, porém, não havia espaço para almoços familiares de domingo ou reuniões logo ao albor da aurora. Transformaram-se em um sátiro e uma ninfa correndo o bosque e celebrando a fertilidade pagã. E, freudianamente, como civilização é repressão e tabu, “incivilizaram-se” de forma generosa. O carro do prazer lançava-se sobre um abismo infindável. Surgiu intervenção familiar.

Meu amigo narrou que os filhos falaram discretamente. Depois foram as sogras. O mundo tolera, com algum azedume, a erotização na juventude. Depois, mesmo nas sociedades mais abertas, espera-se um apagar lento da chama e a ascensão de jantares calmos em casa. O curso natural das coisas fora interrompido pela imaginação sexual de Augusto e Lívia. Era chegado o momento de interromper aquela Kama Sútrica. 

As pressões aumentaram. A felicidade de poucos tornava insuportável a aridez de tantos. Aquele riacho de prazer no deserto da sensaboria virou rio subversivo. O beijo que eles trocavam ao portão causava comentários. Houve detração por toda a rua. Era necessário que abandonassem o erotismo e voltassem ao beijo casto, leve e de poucos segundos. Venceram os portões insípidos de ósculos na testa. Triunfou a castidade. Os dois amantes perceberam que o mundo não poderia admitir, depois dos 50, aquela happy hour permanente em Sodoma e Gomorra. 

Augusto suspirou com um copo na mão ao falar de como se foram roupas e objetos. A cenografia foi desfeita e destruída. Voltaram a usar a mortalha do amor: o pijama. Lívia retornou à camiseta larga que ganhara em uma eleição no início do governo FHC. Augusto recuperou o calção aerado por furos caprichosos. Casal não uivaria mais para a Lua como bacantes ensandecidas. A porta se fechou e até a antiga fresta foi calafetada. Como não havia mais sexo, entregaram-se ao perfeito substituto do prazer: reformar a casa. Em casa que escasseia o orgasmo, abunda a massa corrida no reboco. É uma lei invisível e pétrea. O casal foi bem-aceito novamente e tudo estava bonito na casa e no jardim. Ao partir pela manhã, ele dava um beijo rápido na testa da esposa. Ao atingir a única zona não erógena do corpo humano, os anjos celebravam e a vizinhança apontava: quase 30 anos juntos e ainda se amam... É preciso ter muita esperança, mas sem acessórios. Toda fresta é perigosa para a civilização.

É HISTORIADOR E ESCRITOR, AUTOR DE ‘O DILEMA DO PORCO-ESPINHO’, ENTRE OUTROS

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