À frente do trio elétrico

Grupo revitaliza a guitarra baiana com fusões de ritmos e liberta o pop festivo da ainda massacrante axé music

, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2010 | 00h00

Faz quase 70 anos que Dodô e Osmar (Adolfo Nascimento e Osmar Macedo) tiveram a ideia de acoplar um captador a um violão, eletrificando e amplificando o som de suas cordas. Esse foi o protótipo do que décadas depois passou a se chamar guitarra baiana. Espécie de cavaquinho turbinado, criado a princípio para resolver um problema de microfonia nos shows, o instrumento ganhou as ruas com a invenção do trio elétrico, pela mesma dupla, em 1950. Essa parte da história todo mundo que se interessa por música baiana e brasileira conhece.  

 

 

 

Ouça. linkTrecho da faixa Systema fobica no portal

 

Só que depois que o virtuoso Armandinho Macedo, filho de Osmar, colocou mais uma corda na guitarra baiana e a levou para o universo do choro nos anos 1970, com o grupo A Cor do Som, nada muito mais significativo aconteceu com ela, ficando restrita ao carnaval de Salvador. Mesmo assim, de uns 20 anos para cá, um tanto diluída no turbilhão da axé music. Agora, ampliando iniciativas de artistas como Lucas Santtana e as bandas Lampirônicos e Retrofoguetes para revitalizar o instrumento, o guitarrista Robertinho Barreto vai fundo na questão e o recoloca na linha de frente.

Eis que surge o sensacional trio BaianaSystem, que moderniza e amplifica o alcance e as possibilidades da guitarra baiana, fazendo conexões com dub jamaicano (daí o system, dos sistemas de som), timbres de guitarra e levadas angolanas, naia bing (ritmo originário de uma tribo da Etiópia, que serve de base do hip-hop e da batida afro-jamaicana), kuduro, dancehall, ragga, hip-hop, guitarrada paraense e o som limpo das cordas da chula do Recôncavo Baiano.

Bahia, Jamaica. Contudo, o trio ( que também é elétrico), como Lucas Santanna, uma de suas influências, não nega sua vocação carnavalesca, anterior ao advento da axé music. "A estética do sound system é muito próxima da estética do carnaval de rua daqui, se você pensar no trio elétrico como um sound system andante", confirma Robertinho, ex-Lampirônicos. "E os blocos afros, como Filhos de Gandhi, por exemplo, é um pouco dub na rua, porque eles usam delay na voz, usam reverb, e a guitarra baiana sempre esteve ali."

Entre as 13 faixas do CD BaianaSystem (independente), essa fusão de linguagens e conexões são bem representativas em O Carnaval Quem É Que Faz?, FrevoFoguete (ambas com vocal de Lucas Santtana), e Systema Fobica (Ubaranamaralina) (fobica era o nome do calhambeque com alto falantes que deu origem ao trio elétrico), que unem Dodô e Osmar e Moraes Moreira (com a citação de Eu Sou o Carnaval) às novas expressões baianas de influência afro-jamaicana.

"Nos Lampirônicos a gente já usava guitarra baiana fora do contexto em que ela já vinha. Mas daí veio surgindo um repertório inédito composto a partir dela", diz Robertinho. "Trabalhando com Ramiro Musotto (importante percussionista argentino radicado na Bahia, morto em setembro de 2009), já comecei a experimentar o instrumento com outros elementos. Então veio esse formato do BaianaSystem, com a timbragem da guitarra baiana em alguns momentos próxima do original, mas também experimentando outras coisas."

A banda é formada por Robertinho, Marcelo Seco (baixo e programações) e pelo MC Russo Passopusso, que o guitarrista trouxe do Ministério Público, famoso sistema de som baiano. Além deles, há participações do paraibano Chico Corrêa (efeitos), de Gerônimo (vocais em Da Calçada pro Lobato, tributo ao paraense Pio Lobato), Roberto Mendes (voz em Nesse Mundo), Letieres Leite, B Negão e o já citado Lucas Santtana. Buguinha Dub, parceiro de Lucas, fez dois ótimos remixes.

Novos baianos. Lucas exalta a criação de Dodô e Osmar ("acho o trio elétrico uma das grandes invenções tecnológicas do século passado; ao que veio a se prestar é outra história"), mas ressalva: "No entanto, a guitarra baiana ficou aprisionada nesse universo de Armandinho, Dodô e Osmar, no repertório dos frevos modernos, que são geniais e muito ricos musicalmente falando. Mas acho que todos estavam sentindo falta de ouvir algo que trouxesse frescor para esse universo. E o projeto do Beto acertou nesse caminho. Muitas informações foram anexadas a esse universo. E isso foi feito sem precisar negar o passado, o que é mais bonito ainda."

A revelação baiana Marcia Castro, que não está no disco, mas já cantou em shows da banda, endossa: "Com o BaianaSystem a guitarra baiana, tão desvalorizada, voltou ao lugar central da música, provocando interações e não subtraindo os signos de baianidade. Mas trazendo a música baiana para uma realidade contemporânea por meio dessas misturas, não só musicais, mas na própria poesia, na palavra, no discurso."

O DJ Patrick Tor4, entusiasta de primeira hora do BaianaSystem, lembra que desde que a axé music passou a dominar o cenário, os novos artistas de Salvador que não se identificavam com aquele estilo se retraíram. "O artista pop baiano se viu tão oprimido pela fórmula do sucesso do axé que nem sequer conseguia fazer nos anos 90 algo que flertasse com a sua realidade local, identidade cultural e referências tradicionais como o que Recife, Belo Horizonte e Rio de Janeiro conseguiram com bandas como Nação Zumbi, Pato Fu e Pedro Luís e a Parede", lembra.

Sem negar a importância do impacto cultural e comercial desse movimento baiano para a música brasileira, o aspecto negativo vem da criação de uma espécie de "monocultura" da indústria do carnaval. Até que a roqueira Pitty despontou como uma esperança. "Essa ressaca vem sendo curada com excelentes trabalhos como os de Ronei Jorge e os Ladrões de Bicicleta, Lucas Santanna e BaianaSystem, mostrando o que poderia estar sendo feito com a música baiana há 15, 20 anos, se não fosse o impacto negativo da axé music."

Como diz Lucas no disco, como será o futuro do carnaval "é a pergunta que não quer calar". Marcia, no entanto, acredita que a nova banda de Robertinho "é só o começo de um novo momento da música baiana." Enfim, a Bahia pop contemporânea reage com mais força e vontade.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.