A frágil love story de James Gray

Até os fãs do diretor se decepcionaram com a ingenuidade de The Immigrant, estrelado por Marion Cotillard

LUIZ CARLOS MERTEN , ENVIADO ESPECIAL / CANNES, O Estado de S.Paulo

25 de maio de 2013 | 02h07

Havia muita expectativa pelo novo filme de James Gray, The Immigrant, com Marion Cotillard, Jeremy Renner e o ator preferido do diretor, Joaquin Phoenix. Não é que The Immigrant seja ruim, mas certamente ficou abaixo do que era esperado do diretor. Há, pelo menos aqui em Cannes, um culto a James Gray. Seus tietes resistiram bravamente, mas não há como esconder certa decepção pela nova love story do autor.

Gray adora conflitos familiares e triângulos amorosos. Não é por acaso que Rocco e Seus Irmãos, de Luchino Visconti, é um de seus filmes do coração. Em princípio, não há nada mais distante de um aristocrata (e comunista) italiano do que um judeu nova-iorquino, mesmo de ascendência europeia. Mas Gray ama a ópera e o melodrama, como Visconti. E, como em Rocco, dois primos - Phoenix e Renner - desejam Marion.

Ela representa uma polonesa que, no começo do século passado, chega a Nova York com a irmã. Em Eliss Island, são separadas. A irmã tem tuberculose e vai para a enfermaria do serviço de Imigração. Marion, desqualificada por conduta indecorosa no navio - apesar de seus protestos, é chamado de prostituta -, é enviada para a fila de deportação. Phoenix, com suas conexões, impede que isso ocorra. E faz dela uma prostituta - como Nadia (Annie Girardot) na obra-prima de Visconti.

É uma história de amor bem atravessada. Ao mesmo tempo que deseja Marion, Phoenix a desqualifica - mas acusa o rival, Renner, de ridicularizá-la em público, durante seu show de mágica. A consequência é que Marion, não apenas odeia Phoenix, como também não possui muita autoestima. O movimento do filme consiste em acirrar o conflito entre os primos para aproximar as irmãs. No limite, a love story é entre elas, e sobre o esforço de Marion para tirar a irmã daquela enfermaria.

The Immigrant tem belas cenas, um convincente trabalho de ambientação e recriação de época, mas algo falha nessa história toda. Nada surpreende e a trama segue por uma via que parece conhecida. Não é exatamente o que se espera de um grande autor e não será surpresa nenhuma se Cannes, mais uma vez, esnobar um diretor que tem sido um regular em sua competição. Com exceção de Little Odessa - premiado em Veneza, em 1994 -, Gray tem baixado em Cannes a cada dois anos, ou quase, mas nada leva em termos de prêmios. Dificilmente será desta vez que o júri 'cannis', presidido por Steven Spielberg, vá lhe outorgar a Palma. Seria uma surpresa e tanto.

É mais provável que Gray receba de novo a crítica que o The New York Times fez a A Noite nos Pertence, de 2007 - muito lento para ser um prazer culpado, muito débil para ser um prazer inocente.

Cahiers du Cinéma, em sua edição do festival, já cravou que James Gray, com A Imigrante, vai permanecer uma paixão francesa. O festival se encerra no fim de semana, com a outorga da Palma de Ouro amanhã à noite.

Hoje, sai o prêmio da crítica. Ainda faltava ontem exibir os filmes de Roman Polanski e Jim Jarmusch, que são diretores importantes. Há um certo favoritismo do chinês Jia Zhang-ke (Um Toque de Pecado) e do magrebino (francês) Abdellatif Kechiche (A Vida de Adèle). Mas há dúvida se o presidente do júri, Steven Spielberg, vai querer avalizar a love story gay de Kechiche, justamente no momento em que a França se divide sobre o assunto. Há dois dias, só para situar o quadro, um idoso de 74 anos se suicidou na catedral de Notre Dame, em Paris, e deixou uma carta dizendo que era em protesto pelo casamento para todos.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.