A fotografia em debate

Caderno 2 convidou artistas para encontro na SP-Arte/Foto

CAMILA MOLINA, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2012 | 02h08

Demorou tempo para que a fotografia entrasse nos museus, mas hoje é impróprio questionar o status de arte alcançado pelo gênero fotográfico. Um meio, uma técnica, uma mídia que muitas vezes se mistura a outras, a prática fotográfica é uma das mais fortes vertentes da arte contemporânea e, sendo assim, seus rumos no cenário atual foram temas do debate que o Caderno 2 e a feira SP-Arte/Foto promoveu na tarde de sexta-feira na Livraria da Vila do Shopping JK Iguatemi. Tendo como mediador o repórter do Estado Antonio Gonçalves Filho, o encontro, aberto ao público, recebeu os artistas Rochelle Costi, Sofia Borges, Pedro Motta e Thiago Rocha Pitta para uma conversa informal e oportuna sobre a fotografia.

Criadores com diferentes pesquisas artísticas, os debatedores convidados têm em comum o uso do gênero fotográfico - diretamente ou não - em sua produção. "Acho que sou a mais antiga usuária da fotografia nesta mesa", disse Rochelle Costi, contando que, em 1984, quando iniciou sua carreira, foi cursar comunicação porque ainda existia uma barreira nas faculdades do País em relação a essa arte. "Gostava de fotografia e não sabia desenhar", brincou Rochelle, lembrando que somente no fim da década de 1980 começou a se configurar um cenário mais aberto à fotografia no Brasil.

Já que o evento ocorreu na feira SP-Arte/Foto, encerrada ontem, será que a legitimação da fotografia no mercado garantiu seu status de arte? Mais ainda, o diálogo do gênero com outras mídias é positivo? Foram as primeiras perguntas lançadas por Antonio Gonçalves Filho aos artistas, todos eles com obras expostas no evento. "Vim do desenho e a fotografia supriu carências que tinha em minha pesquisa", afirmou Pedro Motta. "Não me considero fotógrafa, quis me aproximar da técnica para corrompê-la", disse Sofia Borges, de 28 anos, a mais jovem participante da 30.ª Bienal de São Paulo, em cartaz até 9 de dezembro.

A artista tem um discurso articulado sobre seu trabalho, iniciado com a investigação da imagem de "baixíssima resolução" e tendo como base "a literatura, a pintura e o cinema". "Não sou defensora da tecnologia digital, a questão é como usar a técnica disponível", avaliou Sofia Borges. "A fotografia é promíscua, tem papel na memória, na afetividade, na sociologia, é uma trama que está em todo lugar e isso me interessa muito", continuou. O autorretrato tornou-se a primeira forte vertente do trabalho de Sofia Borges.

Inicialmente, segundo ela, a fotografia era uma "máquina de estranhar" para depois se transformar em um meio de a artista se reconhecer entre coisas banais como o ambiente de uma cozinha ou de um quarto. Hoje, sua obra incorpora diversos elementos, criando "uma atmosfera ao mesmo tempo distante e familiar".

Rochelle Costi, que traz em suas imagens, por exemplo, as pequenas coisas do cotidiano ou interiores de casas, cria um trabalho que, afinal, seria "documental ou um delírio fantasioso"? "As duas coisas. Parto do princípio de que tudo existe e as imagens são inventadas com as coisas que estão no limbo de existência, que estão no auge da decadência, mas têm a dignidade de ainda existirem", afirmou Rochelle, que exibe atualmente a instalação Tombo na Casa da Imagem da cidade de São Paulo.

Já a questão da paisagem e a reinterpretação da realidade foram questões que uniram as pesquisas de Pedro Motta e de Thiago Rocha Pitta, que também participa da 30.ª Bienal (mas com uma instalação escultórica). "Todo lugar que existe já existiu de uma maneira muito diferente num passado muito distante e isso me interessa. Na fotografia, tento descaracterizar a localização das paisagens as quais me aproprio", descreve Rocha Pitta. "Para mim, a fotografia é usada no registro de uma ação, mas existe uma questão de conflito com a minha vontade de mexer a imagem", afirmou Motta. "A fotografia é uma ferramenta, uma técnica. A linguagem é da arte", conclui Rocha Pitta.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.