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A foto prova que somos pacíficos

Os meninos estavam excitados.

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

20 Março 2015 | 02h06

Vamos, vô?

Ainda estamos pensando, seu pai e eu.

Daniel, meu filho, pai de Pedro, Lucas e Felipe me olhava com ar que eu traduzia como: "Será que devemos?". Eu tinha a mesma dúvida. Seria conveniente levar os três à Avenida Paulista para a manifestação contra o governo Dilma e os desmandos do PT? Daniel me lembrou como eu o levei a um comício das Diretas Já, 31 anos atrás. Ele estava com 12 anos e seu irmão André com 10. Paramos longe da Praça da Sé, fomos a pé, o povo caminhando em ordem, todos de amarelo. O Brasil inteiro estava amarelo naqueles dias. Daniel questionou:

- Hoje é diferente, pai. E se os vândalos aparecem? Vale a pena arriscar?

Antes que eu respondesse, Pedro perguntou:

Mas o que é que vai acontecer?

Vamos protestar contra o governo.

O que o governo fez?

Mais fácil dizer o que o governo não fez!

E o que o governo não fez?

Não trabalha!

Como?

Não governou. Não cuidou do que devia fazer.

Os três me olharam, aturdidos. Sabia que precisava explicar a meninos que já têm capacidade de entender o que é desgoverno.

Não deu escola para o povo.

Mas nós estamos na escola.

- Nós podemos pagar. Nos apertamos, mas pagamos. E os que não podem? Precisam estudar de graça. Falta escola, falta professor, falta tudo. O governo não cuida da saúde.

- Mas não são os médicos que cuidam da saúde?

- São. Mas é preciso formar médicos, construir hospitais, pronto-atendimento (quase disse pronto-socorro, palavra antiga), o governo deve pagar para os que não podem pagar possam ser atendidos.

- E quem não pode, como faz?

- Fica doente, morre.

- Mas então o governo é o culpado?

- Claro! Entenderam?

- Mas se alguém mata alguém, não vai preso, não vai para a cadeia? O governo deixa morrer, quer dizer, mata e fica por isso?

- Vejo que estão entendendo.

Fomos até a padaria. Daniel me olhando com cara de: "Vai valer a pena?". Eu pensando nele e no irmão felizes na Marcha pelas Diretas, pensando em mim, levado pelo meu pai, quando Getúlio Vargas visitou Araraquara, sei lá em que ano. Nunca me esqueci da cara redonda daquele velhinho de óculos que os ferroviários diziam ser bom para os trabalhadores. Sei hoje que vivi um instante da história de minha cidade.

O que o governo não faz, vô?

- Não dá escola, não dá saúde, cobra imposto demais, não tem estradas. Vive de trapalhadas. O governo tem várias empresas que dão muito dinheiro. O partido do governo se encheu de dinheiro e os caras roubaram, meteram a mão, meteram no bolso.

- Mas quem rouba não vai preso?

- Vai se for um coitado, um qualquer. Gente do governo que rouba não vai. Nunca.

- Deputado é do governo, não é?

- É... ou devia ser.

- Tem muito deputado roubando, vejo você e meu pai conversando, vejo notícias na televisão.

Meu filho e eu nos olhamos e pensamos a mesma coisa: melhor não deixar criança ver televisão. Dá confusão. Uns podem matar e roubar e nada acontece, outros não. Por que governo e partidos roubam tanto? E estão frescos da vida, numa boa? Este paradoxo funde a cabeça de uma criança em formação. Como explicar que um partido que era o sonho e a esperança de transformação de milhões de corações brasileiros acabou formando a maior quadrilha de assaltantes, ladrões, corsários, traficantes, chantagistas, achacadores de nossa história? Deram um nó no Brasil e não sabem como desatar. Tais coisas me vinham à cabeça, era preciso destrinchá-las de modo compreensível. De repente, Lucas me sacudiu:

- Vô. Se você não trabalhar no seu emprego, se você roubar no seu emprego, você não é mandado embora?

- Se eu for o culpado, sou demitido e ainda podem me prender. Mas precisam provar que eu me meti na bagunça. Se for provado que são meus funcionários, aí demito todos e vou mudar o jeito de trabalhar

- E por que não fazem isso no governo?

Para isso, o povo está indo para as ruas!

Ele entendeu. Aquelas crianças sabiam o que se deve fazer. Felipe ainda comentou: se for, levo meu caderno, vou pintar tudo.

Acabamos não indo para a Paulista, não levamos os três garotos. O medo da violência, dos que são pagos para isso, vândalos e black blocs, do "exército de Lula", foi maior. Nos arrependemos na segunda-feira ao olhar uma foto maravilhosa de Hélvio Romero, que deveria se tornar uma bandeira e disparar pela rede social. Significa: paz. Na primeira página do dia 16, este jornal publicou a imagem de quatro crianças sorridentes, copos de refrescos na mão, sorrindo tranquilas, fascinadas com a manifestação. Atrás delas, dezenas de policiais com escudos, linha de frente de guerreiros ferozes que não precisaram entrar em ação. Estamos crescendo. Eles, aqueles que nos chamam de "outros" e nos desprezam dizendo que somos 'elites", sabem que vão cair. Todos sabem quem são eles. Todos sabem seus nomes, o que fazem (ou não fazem), o destino final. Estamos de olho em cada um. Até podermos dizer aquela frase antiga: Conheceu papudo? Ou melhor, Papuda!

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