A foto, o banner e a polêmica: será que é o Mario?

Suposta foto do escritor Mario de Andrade foi usada nos tributos do Dia da Consciência Negra

Francisco Quinteiro Pires,

22 de novembro de 2007 | 17h29

O consultor de literatura do Museu AfroBrasil, Oswaldo de Camargo, afirmou que, independentemente da autenticidade da foto do escritor Mario de Andrade (1893-1945), estampada em banner da campanha do Dia da Consciência Negra, promovida desde o começo do mês, pelo governo do Estado, "o que parece estar incomodando é saber que o Mario de Andrade é afrodescendente".   Veja também: A foto polêmica de Mário de Andrade: decifre o mistério    A polêmica em torno da veracidade da fotografia usada na campanha veio à tona na última quarta-feira, 21. O retrato controverso foi escolhido, porque "ressalta os traços negróides" do escritor paulista, explica Oswaldo de Camargo. "Nunca vi uma fotografia em que a herança africana do Mario ficasse tão evidente", ele diz.   No dia 7 deste mês, o secretário municipal de Cultura, Carlos Augusto Calil, viu pela primeira vez a fotografia, extraída em 1989 por Oswaldo de Camargo do arquivo do jornal O Estado de S.Paulo, onde trabalhou por quase 40 anos. Os banners já estavam confeccionados no dia 7. Em seguida, Calil procurou a professora de literatura da USP Telê Ancona Lopez, organizadora do acervo do escritor, para comprovar se o fotografado era mesmo o autor de Macunaíma e Contos Novos.   Calil, que tem "certeza absoluta de que não é o Mario", manifesta a vontade de que a autenticidade seja logo comprovada. "Me admira que alguém confunda o fotografado com o Mario de Andrade", ele diz.   Segundo o secretário municipal de Cultura, não faz sentido discutir se o autor de Paulicéia Desvairada é mesmo negro. "Discutir em cima de teses e não de constatações é tapar o sol com a peneira", diz Calil. "O fato é que ele tinha traços negros e, se é para discutir isso, tem de ser com base em uma fotografia real", continua.   Depois de consultar pesquisadores e comparar fotografias no acervo do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), na USP, a professora Telê Ancona garante que o retrato não é de Mario de Andrade. "Os olhos que aparecem nessa foto são estrábicos, as maçãs do rosto são salientes, as sobrancelhas e as orelhas têm formatos diferentes", diz Telê. A professora do IEB fala da hipótese de que o retrato seja de Mario Andrada, jogador de futebol contemporâneo ao escritor, que o chama de xará em um dos poemas de Paulicéia Desvairada.   A mesma opinião é compartilhada pelo crítico literário Antonio Candido. "Não é o Mario de Andrade, eu o conheci pessoalmente", ele diz. Para Candido, polêmica é fazer "caso com uma coisa sem importância".   Carlos Augusto de Andrade, sobrinho do escritor, é categórico ao negar a legitimidade do retrato. "Não tem nada a ver, aquele tipo de óculos meu tio nunca usou, seu nariz não era adunco e os olhos não são daquele jeito", ele diz.   O sobrinho do escritor disse que a controvérsia revela "uma pisada na bola pelo governo". "É muito esquisito aparecer a foto do bolso de alguém e ser usada numa campanha oficial, quando existem várias fotos de fonte segura. Por que não foram no IEB ou procuraram gente viva que conviveu com o Mario?", ele questiona.   Ele diz que a ação de ressaltar a matriz africana de Mario de Andrade é uma atitude totalmente irrelevante. "Ser negro ou não, tanto no caso do Machado de Assis como do Mario de Andrade, não afeta a genialidade literária dos dois escritores", ele afirma.   Não é a primeira vez que essa fotografia provoca discussões, lembra Telê Ancona Lopez. Em exposição de 1993, realizada pelo Sesc-SP, para comemorar o centenário de nascimento do musicólogo, ela questionara a autenticidade da fotografia. "Desde então, não faz sentido essa foto continuar a circular dessa forma."   Procurado pelo Estado, o secretário estadual de Cultura, João Sayad, disse que vai procurar o IEB para analisar a autenticidade da fotografia. O banner com a imagem polêmica fica exposto no Centro Cultural São Paulo até o fim deste mês.

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