A fortaleza, por seu monge soldado

Carlo Brandt é um daqueles atores conhecidos mas de quem a maioria do público não sabe o nome. Ele apareceu em filmes como Caindo no Ridículo, de Patrice Leconte; Código Desconhecido, de Michael Haneke; e Maria Antonieta, de Sofia Coppola. Na França, é muito respeitado como ator multimídia (cinema, teatro e TV), mas o espectador provavelmente precisará olhar na foto para saber de quem se trata.

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2010 | 00h00

Brandt é um dos protagonistas de A Fortaleza, série de Didier Le Pêcheur que o Eurochannel começa a exibir hoje às 21 horas. Serão oito episódios, sempre às quintas-feiras, e no mesmo horário. No original, chama-se La Commanderie. Narra a vida numa fortaleza medieval. Brandt faz o comandante local, mas a particularidade é que se trata de um mosteiro e os personagens são monges-soldados. A fortaleza esconde um segredo - um tesouro? - dos templários.

Numa entrevista por telefone, de Paris, Carlo Brandt revela que A Fortaleza se constituiu num caso curioso da TV francesa. A série foi produzida por France 3, mas entre a realização e a estreia, houve uma mudança na rede. A nova direção resolveu "esconder" A Fortaleza sem deixar de exibi-la. Programou para o sábado à tarde, num horário tradicionalmente morto, em que os franceses não estão diante de seus televisores. O resultado foi, como se poderia esperar, baixa audiência. Já os críticos amaram A Fortaleza e não pouparam elogios ao diretor nem a seu elenco.

"Foi um trabalho feito com muito empenho", conta Brandt. "Embora os personagens sejam anônimos, Didier teve acompanhamento de historiadores para garantir a acuidade do material. Poucos filmes históricos são tão exatos." Naturalmente que só isso não bastaria para segurar os elogios dos críticos. "Didier é um diretor que sabe contar histórias e aqui, além da exatidão, contava com um material apaixonante, principalmente para quem gosta de histórias de cavaleiros templários." Ao longo da história, eles sempre foram associados a segredos - e teorias conspiratórias, que tentavam explicar como a ordem cresceu e se consolidou na Europa pós-Cruzadas, até ser extinta a ferro e fogo.

O mais importante é que, segundo ele, Didier Le Pêcheur conseguiu sintetizar numa fortaleza medieval os conflitos que caracterizam a França na atualidade. "Somos um país em crise de autoridade, e de valores", reflete. O ator pode ficar horas falando da produção e dos personagens - e também dos seus papéis para Leconte e Sofia Coppola -, mas revela que sua preferência é pelo cinema de autor. Não se admira nem um pouco quando o repórter comenta que, no Brasil, o cinema francês que faz sucesso é o de autor. "Não adianta copiar Hollywood, porque os norte-americanos são insuperáveis fazendo blockbusters", diz. Quanto às comédias populares francesas, ele acha que a maioria possui interesse meramente regional.

Já que o cinema é de autor, que tal falar de Jean-Luc Godard, que completou 80 anos recentemente, ou de Claude Chabrol, que morreu em setembro? "Chabrol falou como ninguém sobre a burguesia francesa. Godard reinventou a gramática do cinema." Ele conta que seria o protagonista masculino de Je Vous Salue, Marie, mas, como intimidava a atriz Myrian Roussell - e Godard escreveu o filme para ela -, foi dispensado. Não se queixa. "Ele me pagou corretamente e conviver com o gênio foi uma experiência fascinante."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.