A forra dos eunucos

Prosa de Sábado

Sergio Augusto, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2010 | 00h00

Na condição de jurado no recente Festival de Paulínia não podia falar dos filmes em competição, mas de cinema em geral, tudo bem; e foi por essa brecha que dois jornalistas de Campinas me pegaram para um tête-à-tête. Às horas tantas, a indefectível pergunta sobre o papel da crítica. Já era tempo de eu ter uma resposta engatilhada, tantas vezes me perguntaram sobre isso; mas, como nas outras vezes, só tirei banalidades do colete.

O assunto é espinhoso e de difícil cultivo no baldio de uma entrevista, vocacionalmente superficial. Fixei-me em duas certezas: 1) a crítica é um mal necessário; 2) ajudou à beça o cinema brasileiro. Toda vez que alguém reclama de uma suposta má vontade da crítica com o cinema brasileiro, tenho ganas de enfiá-lo numa máquina do tempo e despachá-lo para as décadas de 1940 e 1950. Naquele tempo, sim, nossos filmes e seus realizadores sofriam o diabo na mão dos críticos e jornalistas em geral.

Moniz Vianna, mestre da minha geração, tratava as chanchadas a chibatadas e chegou a recomendar a dois de seus mais prolíficos expoentes, Lulu de Barros e José Carlos Burle, que mudassem de profissão: para, respectivamente, pintor de parede (ou taqueiro) e acrobata. Anos depois, apelidou os gêmeos Renato e Geraldo Santos Pereira, ambos diretores, de irmãos Santos Besteira e irmãos Brothers.

Quem se habilita a compilar essas e outras espirituosas espinafrações? Afinal, elas também fazem parte do folclore do cinema brasileiro e tornaram-se inofensivas com o passar do tempo. Talvez apenas Paulo César Saraceni não tenha esquecido do apelido que o crítico Ely Azeredo deu a seu filme Porto das Caixas: "Aborto das Caixas". Outro clássico: o fulminante comentário de quatro palavras que Jaguar fez, no Pasquim, ao filme A Batalha dos Guararapes, de Paulo Thiago: "Desta vez o Brasil perdeu."

O crítico pode ser comparado a um eunuco no harém, mas quando o sultão broxa, ele vai à forra e se diverte.

Se uma crítica sóbria mas implacável é capaz de azedar uma amizade, outra, temperada de ironia ou galhofa, pode causar estragos maiores. As pedras reconhecem o valor de uma boutade; as vidraças, não.

Segundo Millôr, os humoristas não atiram para matar. Os críticos tampouco, a despeito do que falam da morte do poeta irlandês Yeats, suposta vítima de uma crítica arrasadora (e, se comprovada a suspeita, letal) publicada na Quarterly Review. Não saberia citar o nome de um crítico que tenha atacado um criador com outra arma que não aquelas sacadas do dicionário. A recíproca não é verdadeira. Vá a um centro espírita e pergunte ao Paulo Francis.

Não era por ser truculento ou maluco, mas apenas dadaísta, que o francês Jacques Vaché tinha o hábito de subir ao palco com um revólver na mão, para ameaçar com um tiro quem aplaudisse a peça que ele estava achando uma porcaria. Ficou sempre na ameaça. Já Saint-Beuve, o grande crítico francês do século 19, chegou a ser desafiado para um duelo; mas quando a furibunda vítima de seus comentários permitiu que ele escolhesse a arma de combate, Saint-Beuve sacou rápido: "Ortografia!", e proclamou-se vencedor. Dispunha da melhor das munições, o humor.

Nenhum artista é imune à crítica e só espíritos superiores a tiram de letra por sabê-la circunstancial, passageira, e muitas vezes inócua. Consolem-se: até Shakespeare enfrentou resistências às suas peças, desapreciadas por Samuel Pepys, Alexander Pope, Lorde Byron e Voltaire. Machado de Assis foi pichado por Silvio Romero. Walt Whitman levou cascudos de Algernon Swinburne, o Saint-Beuve inglês. Mark Twain achava Poe e Jane Austen ilegíveis. Virginia Woolf disse as piores de Joyce. Henry James cansou de ser espinafrado por H.G. Wells e Oscar Wilde. "A primeira regra para um jovem autor", aconselhou Wilde, "é não escrever como Henry James. A segunda e a terceira, também".

Ao contrário do que muitos pensam, a posteridade não é bônus exclusivo das obras criticadas. Ninguém mais se recorda de um espetáculo teatral intitulado Wham! Nem os ratos da Broadway se lembram dele. Mas um bocado de gente sabe de cor a crítica que Wolcott Gibbs escreveu sobre Wham!, na revista The New Yorker: "Ouch!" Só isso. Interjeição com interjeição se paga.

Se Gibbs produziu a diatribe mais concisa de todos os tempos, a mais mordaz talvez tenha sido um privilégio de seu colega de ofício, George Jean Nathan. Famoso, acima de tudo, por uma tirada que Paulo Francis adotou como mantra ("Bebo para tornar as outras pessoas interessantes"), Nathan fazia picadinho dos fiascos teatrais nos anos 1930 e 1940 sem jamais perder a graça. Sua crítica a uma comédia idiota, intitulada Smile! Smile! Smile!, instantaneamente condenada ao ostracismo, não continha mais do que três palavras: "I didn"t! I didn"t! I didn"t!" Nathan não riu, mas seus leitores se esbaldaram.

Ao vivo, Nathan, o modelo de Addison De Witt, o personagem de George Sanders em A Malvada, também era um azougue. Na estreia no palco de White Cargo, aborreceu-se de tal modo com a vulgaridade e o inglês estropiado da protagonista, uma nativa chamada Tondelayo, que na cena em que ela se recusava a fugir de sua aldeia no Congo, aos gritos de "Me Tondelayo, me stay!", levantou-se na plateia, berrou "Me George Jean Nathan, me go!", e foi-se embora. Um espetáculo à parte.

Ok, Gibbs e Nathan não sabiam dirigir o carro, mas conheciam o caminho. E sabiam sacar quem era ruim de volante.

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