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A força política da linguagem

Luandino Vieira fala sobre Luuanda, sua pequena obra-prima da resistência

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2010 | 00h00

Luandino Vieira era um dos convidados mais aguardados do Fórum das Letras. Português naturalizado angolano por convicções políticas, ficou preso durante 14 anos por colaborar com o Movimento Popular de Libertação de Angola e, durante esse período, escreveu Luuanda (Companhia das Letras), publicado em 1964 e logo censurado pela ditadura salazarista por fundir o português e o quimbundo, um dos idiomas nacionais angolanos. "Segui uma opção política ao escrevê-lo", contou Luandino ao Estado, na seguinte entrevista.

Por que o senhor tinha tanta vontade de conhecer Ouro Preto?

Quando estive preso, recebi o suplemento literário de um jornal mineiro que trazia a crítica do livro O Negro no Garimpo de Minas Gerais. Pela crítica, descobrimos que tratava das canções de trabalho do negro angolano. Eu e meus colegas presos conseguimos o livro que, descobrimos depois, trazia frases inteiras da língua quimbundo. Mais: que havia descendentes vivendo isoladamente em São João da Chapada, perto de Diamantina. Isso foi em 1968 e, desde então, prometi a mim mesmo que viria a Minas Gerais.

Durante esse período na prisão, havia a solidão necessária para escrever?

Éramos muitos dentro de uma só caserna. Mas tínhamos um período em que ficávamos fora das celas. E, como eu era o bibliotecário da prisão, tinha esse período para escrever. Escrevi um livro inteiro debaixo de uma árvore, em verdadeiro transe. Até hoje não sei como consegui escrever aquele livro em apenas uma semana.

A linguagem é um personagem vital de Luuanda.

Por força dos personagens, descobri que nos diálogos eu utilizava a linguagem popular, mas não nos textos indiretos. Foi só depois de ler Guimarães Rosa que percebi ser possível. Assim, baseado na linguagem popular, tentei criar uma literária homóloga.

O senhor primeiro criou a trama e só depois escreveu?

Sim, eu penso primeiro na história - inclusive frases - até descobrir qual será a última palavra. Aí começo a escrever. Como estava preso e tinha um horário controlado, não pude reescrever muito. Mas, deixei descansando algumas semanas até retomá-lo e finalmente fixar o texto.

Luuanda é um pequeno clássico por apresentar essa mistura de idiomas. Mas, atualmente, o português se impôs como uma língua nacional em Angola, ao lado de outras mais tradicionais. Como o senhor vê o livro hoje?

Em sua época, era uma força de resistência, tinha uma conotação política. Hoje, acho que se transformou em peça de arte.

De fotografia, tornou-se uma pintura?

Essa é uma bela síntese.

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