A força do afeto em novo filme de Alain Resnais

´Medos Privados em Lugares Públicos´ traz histórias cruzadas de seis personagens

Luiz Carlos Merten, do Estadão

07 de julho de 2013 | 11h06

Alain Resnais trabalhava no projeto deuma ópera adaptada de Kurt Weil, O Tsar se Faz Fotografar. Játinha o elenco, a direção de arte, a cenografia, a partitura.Faltava o dinheiro. Como disse o diretor em sucessivasentrevistas, é muito difícil financiar uma ópera no cinema. Oúltimo grande aficionado, Daniel Toscan du Plantier, morreu háalguns anos. A ópera cinematográfica de Resnais foi arquivada.Em busca de uma alternativa para seguir trabalhando, ele sevoltou para o dramaturgo inglês Alan Ayckbourn e fez Coeurs,uma adaptação da peça Medos Privados em Lugares Públicos (quevirou o subtítulo no original e o título no Brasil). MedosPrivados estréia amanhã, 13, na cidade. Um filme de Alain Resnais é sempre um acontecimento,mesmo que a obra recente do autor não pareça mais tãorevolucionária, na linguagem e até nos temas, como quando elefez pináculos da modernidade no cinema - Hiroshima, Meu Amor,O Ano Passado em Marienbad e Providence. Resnais mudou paracontinuar o mesmo - viciado pela forma, atraído por personagensque parecem retomar os ratos de laboratório de Henri Laborit emMeu Tio da América. MetáforaEm vários momentos, quando Laura Morantevisita os apartamentos desertos em companhia de André Dussolier,em busca do lugar ideal para habitar com Lambert Wilson, acâmera no alto, filmando em plongê - de cima para baixo -,acentua esse caráter de ratos num labirinto. Para seus atores etécnicos, Resnais construiu outra metáfora - a de uma teiaabandonada pela aranha, mas na qual permanecem presos seteinsetos. Três homens e três mulheres compõem casais (ou umaespécie de). Cruzam-se no mesmo espaço, menos um homem e umamulher. E há uma figura misteriosa, obscura, Arthur. No passado, Resnais já havia adaptado Ayckbourn, fazendoSmoking/No Smoking. O autor inglês possui um teatro emScarborough, que o próprio Resnais prefere definir como casa decultura. Inclui duas salas de teatro, um cinema, um bar e umalivraria. Todo ano Ayckbourn cria uma peça nova para apresentarem seu espaço. Há cinco, Resnais não o visitava. Ayckbourn haviaestreado cinco novas peças, portanto. A que mais seduziu odiretor foi Medos Privados em Lugares Públicos - peloestranhamento, como ele diz. Forneceu o material para quetrabalhasse com atores que, cada vez mais, lhe são fiéis -Sabine Azéma, Pierre Arditi, André Dussolier, Claude Rich. Aeles somam-se Laura Morante (de O Quarto do Filho), IsabelleCarré e Lambert Wilson.Desconstrução Para se posicionar em relação a Medos Privados emLugares Públicos, o que o espectador precisa renunciar, desaída, é à intriga. Resnais sempre gostou de desconstruir suashistórias, embaralhando tempo e espaço (Hiroshima eMarienbad) ou embaralhando realidade e imaginação (Marienbad e Providence). Não acontece muita coisa em Medos Privados.Os personagens estão sempre em movimento, existem qüiprocósdivertidos em cada um deles. Charlotte, interpretada por SabineAzéma, é uma cristã interessada na salvação da humanidade ou umaperversa capaz de maquinações maquiavélicas? A fita de vídeo queela dá a Thiérry (Dussolier) sobre o programa Canções QueMudaram Nossas Vidas é um tédio, pelo menos até que entre emcena esta mulher seminua - a própria Charlotte? - fazendocontorcionismos físicos que deixam o coroa solitário louco.ImaginárioComo se posicionar face ao imaginário de Resnais? Umaboa porta de entrada é a que leva ao espaço habitado por cadapersonagem. Nicole (Laura Morante) busca uma casa, umapartamento de três peças. Cada personagem possui sua casa, ouseu espaço, menos Charlotte, que compartilha o escritório comThiérry e leva seu maquiavelismo ao apartamento de Lionel(Arditi), onde exerce a função de enfermeira do pai dele, emenos Dan (Lambert Wilson), que passa a maior parte do tempo nobar em que Lionel é o atendente. Resnais não vê incompatibilidade alguma entre cinema e teatro. Ao contrário do livro, em que o leitor pode voltar atrás, no teatro não se pede ao ator que repita a cena nem ao operador, no cinema, que volteatrás com o filme. A peça e o filme, como a vida, vêm num jorro.Resnais situou a ação em Bercy, na área próxima à BibliotecaNacional. É uma Paris que não parece Paris. O exterior nãoimporta muito, só o interior, onde neva, ainda por cima - dentrodas casas! O tema de Ayckbourne é o medo privado no lugarpúblico. O de Resnais é o afeto, contra a indiferença. Não poracaso, ele rebatizou seus filmes como Coeurs - Corações. Medos Privados em Lugares Públicos ("Coeurs", Fr-It/2006, 120 min.) - Drama. Dir. Alain Resnais. 16 anos. Cotação: Ótimo

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