A força de uma bondade essencial

O Ladrão de Luz, do Quirguistão, é exemplo da vitalidade de um cinema fora do eixo

O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2012 | 03h11

A história se passa numa aldeia no interior do Quirguistão. Uma das figuras mais conhecidas é o eletricista, a quem chamam de Senhor Luz. Ele talvez fosse uma figura parecida com a do personagem de O Idiota, de Dostoievski, porque parecem tolas ou desprovidas de inteligência todas as pessoas fundamentalmente boas.

O Senhor Luz é uma delas. Alimenta alguns sonhos simples, mas de difícil realização. Ter um filho homem (é pai de várias filhas) e proporcionar a seus concidadãos uma fonte de energia mais barata. Todos se queixam de que a eletricidade está cada vez mais cara, mas o Senhor Luz acha que pode instalar uma rede de moinhos e obter energia de fonte eólica, através do vento abundante do vale.

O filme é de Aktan Aryn Kubat, nascido na antiga república soviética do Quirguistão em 1957. O Ladrão de Luz é seu quarto longa-metragem. Dois dos anteriores, O Filho Adotivo (1998) e O Chimpanzé (2001), foram exibidos na Mostra Internacional de São Paulo.

O Ladrão de Luz é exemplo de um tipo de cinema feito em país rural e com população ainda fechada em si mesma, uma exceção na época global. Não que o mundo externo não exista. Mas conta pouco. As referências, nas falas dos personagens, são ainda à pátria mãe, a Rússia, da qual se libertaram politicamente, mas à qual continuam ligados. Por exemplo, fala-se sempre da pobreza da população, de como tudo está cada vez mais caro (incluindo a energia elétrica) e de como muitos foram obrigados a emigrar para a Rússia, porque lá há trabalho e dinheiro. Estamos, portanto, falando de uma economia estagnada. Por isso, faz todo o sentido tirar energia por seus próprios recursos, ao invés de comprá-la de fora.

Nesse sentido, o filme é como um pequeno documentário sobre o modo de vida de uma dessas aldeias isoladas. De como sobrevivem como podem, e como constituem um poder político local, baseado na sabedoria dos anciãos e também na esperteza de jovens, que desejam conquistá-lo. Nesse meio, o Senhor Luz, por sua bondade, e ingenuidade, é também um estranho no ninho. É daqueles personagens que, sendo tão diferentes dos outros, conseguem, por sua trajetória de exceção, iluminar o que aos outros parece escondido.

O que leva a uma pergunta: o filme, em si, é ingênuo? Às vezes, sem dúvida, parece ser assim. Já vimos esse tipo de cinema com as primeiras levas do cinema iraniano, no início dos anos 1990. Ao lado do encanto que nos proporcionava uma cinematografia de fato diferente, havia certo desconforto (muitas vezes sentido como prazeroso) vindo de uma "pureza" dos personagens. Como se nós, habitantes de uma civilização cansada pelo excesso de comunicação, sentíssemos a vitalidade de sociedades ainda entregues a si mesmas, intocadas pelos vícios ocidentais e podendo exibir sem culpa os seus defeitos originais.

Podemos "ler" assim essa fábula do Senhor Luz em sua defesa das crianças, dos amigos e das mulheres. Mas há também essa percepção de fundo, a de que é a bondade e não a energia elétrica que ilumina o mundo. E essa ideia nada tem de ingênua.

Crítica: Luiz Zanin Oricchio

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