Arquivo/AE
Arquivo/AE

A força de Joana D'Arc pelo cético Preminger

Filme já esboça as obras-primas que o diretor faria depois

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

09 de fevereiro de 2011 | 00h00

Jean Seberg nunca entendeu direito por que Otto Preminger a fez repetir mais de 20 vezes um simples diálogo de Santa Joana. O filme de 1957 baseia-se na peça de George Bernard Shaw. Santa Joana virou Joana d"Arc no DVD que a Versátil está lançando. A frase é lançada por ela ao grande inquisidor - "Não sou orgulhosa. E quase não falo, exceto quando tenho certeza."

Chris Fujiwara, autor do livro sobre a vida e obra de Preminger, diz que o diretor buscava uma entonação particular da atriz porque a frase poderia ser dele, sobre ele. Preminger foi um grande diretor e um homem civilizado, mas sua fama era de um déspota no set. Joana d"Arc talvez seja seu filme mais pessoal, o que ele mais quis fazer. Preminger sempre foi obcecado pela peça de Shaw, desde que começou a fazer teatro, em Viena.

Ele chegou a dizer que era o maior texto já escrito - maior que Shakespeare e os gregos. Não ajudou muito o fato de ter contratado uma atriz sem nenhuma experiência. Preminger infernizou a vida da estreante Jean Seberg, escolhida num concurso. Mais tarde, ele reconheceu que, se ela não rendeu mais, a culpa era sua, não da atriz. Logo em seguida, ofereceu-lhe o papel de Cécile em Bom Dia, Tristeza, que adaptou de Françoise Sagan. Nasceu ali o mito, consolidado quando Jean virou estrela da nouvelle vague, com Acossado, de Jean-Luc Godard.

Veja também:

linkUm autor que disseca a ética na política

Apesar das críticas a Joana d"Arc, Preminger foi sempre um ardoroso defensor do próprio filme. Dizia que o estranhamento que produzia não vinha do fato de tratar da santidade, mas ser feito por um cético racional. Preminger chegou a explicar que contratou Graham Greene para que um mínimo de cristianismo permanecesse no roteiro. Chris Fujiwara chama a atenção para o fato de o filme ser fundamental na evolução do autor. Todo o grande Preminger que vem a seguir já está esboçado em Joana d"Arc - a questão do nacionalismo de Exodus, da política em Tempestade sobre Washington, a fé de O Cardeal e o Exército de A Primeira Vitória, tudo cabe na Joana de Preminger (e Shaw), diferente das de Carl Theodor Dreyer, Roberto Rossellini, Victor Fleming e Robert Bresson.

Conta a lenda que Jean Seberg teria tentado seduzir Preminger. A uma amiga, ela confidenciou que seu sonho era fazê-lo rastejar a seus pés, devolvendo-lhe o martírio a que ele a submeteu durante a filmagem. Jean era uma caipira de Iowa. Contracena com a nata de Hollywood (Richard Widmark) e do teatro e cinema europeus (John Gielgud, Anton Walbrook). Preminger explicou depois que a escolheu porque achava que a garota tímida sentiria o mesmo isolamento de Joana durante o processo. Pode até ser que o filme não seja bom, mas tem muita coisa boa - cenas, interpretações e os créditos que Preminger encomendou a Saul Bass. A parceria de ambos produziu verdadeiras obras-primas de grafismo.

JOANA D'ARC

Direção: Otto Preminger (EUA/ 1957, 110 min.). Elenco: Jean Seberg, Richard Widmark. Distribuidora: Versátil. Preço: 37,50.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.