A força de ir em frente

Fawzia Koofi fala de Dilma e do futuro que quer para o Afeganistão

MARILIA KODIC, ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2013 | 02h21

Ao fazer um balanço de sua vida política, Fawzia Koofi, que lança a autobiografia A Filha Favorita, afirma: "Se eu quisesse simplesmente aproveitar a vida com a minha família, teria sido melhor deixar o Afeganistão, como muitos fizeram. Mas, nos momentos em que vejo a enorme necessidade de uma mudança para o meu povo, tenho a determinação e a esperança para ir em frente".

Apesar do discurso otimista, está apreensiva pelo país, particularmente com a retirada das tropas americanas prevista para 2014. "Somos uma nação de luta pela liberdade que não quer se ver ocupada, e as tropas cometeram muitos erros, como matar cidadãos inocentes. Mas não as vejo como uma força de ocupação, e sim como um parceiro que veio nos ajudar a nos restabelecer", diz, alegando estar preocupada com o fato de que, com a retirada, haja uma deterioração na segurança, no quadro econômico e na situação das mulheres. Acima de tudo, teme que o país seja esquecido pelo Ocidente.

"Sei que os EUA já têm seus próprios problemas, mas acho que o presidente Obama precisa revisar sua estratégia em relação à retirada das tropas. Sei também que muitos países não querem olhar para nós, pois não são parceiros estratégicos ou vizinhos. Mas o Afeganistão não é um produtor de terrorismo. Somos uma nação vítima. Espero que não sejamos esquecidos."

Apesar da visão negativa que o Ocidente tem de seu povo, Fawzia o defende como um dos mais fortes e esperançosos do mundo. "Se qualquer sociedade tivesse passado por tantos e tão grandes conflitos, tenho certeza de que teria sido abolida", afirma, atribuindo a força do povo à fé e aos valores que cultivam, e completa, com um tímido riso: "O que falta é essa primeira geração de políticos não ter mais energia pra se envolver em política".

Regido durante décadas como o feudo pessoal de cada homem poderoso - em sistemas tão diversos quanto monarquia, república e ditadura -, o Afeganistão teve suas primeiras eleições democráticas em 2004. "Fomos governados pelos mesmos políticos por décadas. Acho que a nova geração representa ventos de mudança."

Admiradora da presidente Dilma - "tenho imenso respeito por ela e congratulo o Brasil por tê-la escolhido", afirma acreditar que uma mulher ocupar o posto de presidente é um desafio, mas não um que não possa alcançar. "Perguntam se tenho chances de ganhar. Todo mundo concorre para ganhar. A resposta à minha campanha tem sido muito positiva e sou muito grata ao meu povo por isso. O Afeganistão está se transformando, de uma sociedade que esteve fechada ao mundo, em um país pronto a aceitar a liberdade, e o crédito vai para as pessoas."

Quanto ao futuro que pretende talhar para seu povo, caso ganhe, resume: "Gostaria de ver um Afeganistão que não dependa economicamente de ajuda internacional, mas viva com os recursos naturais que tem, e que consiga se tornar um parceiro para a comunidade internacional e não ser só aquele que recebe ajuda. Acima de tudo, gostaria de ver um Afeganistão socialmente igualitário, independente de cor, crença religiosa ou sexo".

A FILHA

FAVORITA

Autora:

Fawzia Koofi

Tradução:

Camila Mello

Editora:

Objetiva

(288 págs.,

R$ 39,90)

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